|
Mais populosa cidade do Agreste pernambucano,
Caruaru é famosa por sua feira-livre, abriga
um dos mais importantes entrepostos comerciais
do Nordeste brasileiro e tem no Alto do Moura
o maior centro de artes figurativas da América
Latina.
 |
Este título, concedido
pela Unesco, é conseqüência
de uma história que começou
na década de 1940, pelas mãos
do Mestre Vitalino, o grande ceramista criador
dos bonecos de barro que fizeram escola.
|
Quando se estabeleceu na pequena vila, Vitalino
era apenas um humilde artesão que esculpia,
em argila, pequenas peças vendidas nas
feiras da região como brinquedos infantis.
Depois de sua morte, seus brinquedos ganharam
status de obra de arte.
Hoje, praticamente todos os moradores do Alto
do Moura são ceramistas. E foi esta concentração
de artistas populares, aliada à qualidade
artística das peças ali produzidas,
que deram à pequena vila o título
que tanto orgulha os caruaruenses.
Viajemos por esse universo!
Alto do Moura - Distante 7 km
do centro de Caruaru, é um pequeno bairro
localizado no alto de um morro, tem apenas duas
fileiras de casas, quase todas habitadas por artesãos
que ganham a vida modelando bonecos de barro,
conhecidos como "bonecos de Vitalino",
numa referência ao primeiro artista do lugar
que ganhou fama nacional. O bairro ganhou da Unesco
o título de maior centro de arte figurativa
das Américas. É lá que fica,
instalado numa modesta casa onde o artista viveu,
o Museu Mestre Vitalino.
Cerâmica - É a
argila modelada e aquecida a ponto de manter a
forma definitiva desejada. Basicamente, existem
dois tipos: a cerâmica utilitária
e a ornamental, embora atualmente grande número
de peças de cerâmica utilitária
seja utilizada para efeito decorativo. O processo
de produção é único:
pegar determinada quantidade de argila, misturá-la
à água para formar o barro destinado
à curtição durante dois ou
três dias.
Depois, vem a etapa do amassamento para tornar
o barro homogêneo. O barro ganha consistência
pastosa, ideal para a modelagem. As peças
modeladas passam pela fase de secagem e, depois,
vem a etapa do cozimento, geralmente em fornos
rudimentares.
As peças são: vasos, panelas, jarros,
bonecos e outra infinidade de objetos. Um dos
maiores centros produtores é o município
de Caruaru, no Agreste de Pernambuco, onde está
localizado o Alto do Moura, onde são produzidos
os famosos bonecos do Mestre Vitalino.
Vitalino: o homem que inventou os bonecos
de barro e morreu na lama
Qual foi o garoto pobre do interior que nunca
bricou com bonecos de barro, essas peças
despretensiosamente criadas pelo ceramista Vitalino
Pereira dos Santos e que, a partir da década
de 1960, seriam consideradas valiosas obras de
arte? Com certeza, foram poucas as crianças
que não tiveram essa experiência.
Tanto que, no decorrer do tempo, dezenas de ceramistas
passaram a imitar o mestre e, ainda hoje, os "bonecos
de Vitalino" são comercializados na
feiras-livres do Estado, especialmente Caruaru.
Como brinquedos ou como peças do mais representativo
artesanato nordestino.
Mestre Vitalino, que levou toda uma vida modelando
barro e tocando pífano, também foi
um excelente músico popular. Natural de
Caruaru, Vitalino nasceu no Sítio Campos,
onde começou a trabalhar com cerâmica
aos seis anos de idade e de onde saiu, em 1948,
para morar no Alto do Moura.
O mesmo alto que, por conta do trabalho do mestre,
depois seria considerado o maior centro de arte
figurativa da América Latina. E Vitalino?
Bom, o mestre morreu na miséria. Ou, como
se diz no interior, morreu na lama.
A morte de Vitalino Pereira dos Santos ocorreu
a 20 de janeiro de 1963, na humilde casa onde
morava, no Alto do Moura. A causa: varíola.
A partir dessa época os bonecos de barro
de Vitalino ganharam fama como obras de arte e
passaram a percorrer o Brasil e o mundo.
Atualmente, os bonecos de Vitalino estão
expostos até mesmo no Museu do Louvre,
em Paris. A casa onde ele morou virou museu. Sua
vida foi narrada em vídeos, livros e palestras.
E, assim, se repetiu uma história muito
comum no Brasil: o artista pobre só fica
famoso depois que morre.
A trajetória do mestre do barro
Veja, aqui, os principais fatos que marcaram
a vida do Mestre Vitalino, conforme estudiosos
da arte popular nordestina, entre os quais o pesquisador
Alcides Lima:
1915 - Realiza, aos seis anos de idade, o seu
primeiro boneco de barro: um gato maracajá
trepado numa árvore, acuado por um cachorro
e um caçador fazendo pontaria.
1924 - Passa a tocar pífanos e cria sua
banda, composta por quatro músicos (veja
matéria ao lado).
1960 - Participa, na residência do industrial
Drault Hermanny, no Rio de Janeiro, a 29 de outubro,
de uma Noite de Caruaru, durante a qual 37 dos
seus bonecos são leiloados. Destina a renda
para a construção do Museu de Arte
Popular de Caruaru.
03/11/1960 - Recebe do Governo da Guanabara
a "Medalha Sílvio Romero", atribuída
aqueles que contribuem para a divulgação
do folclore nacional. Ao agradecer a honraria,
diz: "Viva Deus, viva a mãe de Deus
e viva quem me deu essa medalha". Nesse mesmo
dia, inaugura a Exposição de Arte
Popular, promovida pela Escolinha de Arte do Brasil
e na ocasião é homenageado.
05/11/1960 - Recebe homenagem de Leopold Arnaud,
adido cultural dos Estados Unidos no Rio de janeiro.
1961 - A embaixada do Brasil em Lima, Peru,
realiza uma exposição das peças
do mestre Vitalino.
16/11/1961 - Doa 250 peças de sua autoria
ao Museu de Arte Popular de Caruaru.
"Eu aprendi tocar pela cadência,
tirando tudo do juízo"
Além de ceramista e criador dos bonecos
de barro, Vitalino também foi um excelente
tocador de pífanos. Como não sabia
escrever, nunca estudou música e explicava
da seguinte maneira sua iniciação
nessa área: "Fui apendendo tocar pela
cadência, tirando tudo do juízo".
Ele tinha sua própria bandinha (ou zabumba,
como também são chamadas as bandas
de pífanos), da qual era o pífano
principal, mestre e compositor.
A Banda do Mestre Vitalino era igual às
outras da região, ou seja, tocava de tudo:
acompanhava procissão (Vitalino era devoto
de São Sebastião e, claro, do Padre
Cícero), anima festas de casamento, batizado
e outras. Nas cerimônias religiosas, o respeito
era sanagrado. Mas, nas "farras do mundo"
as sopradas no pífano eram intercaladas
por uma boa cachaça "pra aliviar o
coração".
Em novembro de 1960, Vitalino viajou ao Rio de
Janeiro, para participar de uma "Noite de
Caruaru", organizada por intelectuais como
os irmãos Condé, e levou junto a
sua banda. O objetivo da festa era uma exposição
de arte, mas a banda agradou tanto que acabou
gravando, nos estúdios da Rádio
MEC, seis músicas que em 1975, já
depois de sua morte, fariam parte do disco "Vitalino
e Sua Zabumba" lançado pela Companhia
de Defesa do Folclore Brasileiro.
Apesar de só ter ficado famoso por conta
dos bonecos de barro, Vitalino tinha uma grande
paixão pela música. Tanto que na
sua mais conhecida foto ele aparece tocando pífano.
Mas a maior apego do ceramista era, sem dúvida,
com sua terra. Na viagem de volta do Rio de Janeiro,
por exemplo, ansioso para chegar em Caruaru, por
várias vezes ele pediu a um amigo que perguntasse
à aeromoça "quantas léguas
faltavam para chegar".
Casa de Vitalino é museu -
Localizada no centro do Alto do Moura, a modesta
casa onde viveu e morreu o Mestre Vitalino foi
construída em 1959. Após a morte
do artista, a casa foi tombada pela prefeitura
de Caruaru que, em 1971, criou e instalou ali
a Casa-Museu Mestre Vitalino.
O acervo do pequeno museu é constituído
por objetos pessoais, fotografias e alguns dos
poucos móveis que pertenceram ao ceramista.
Quem cuida do museu é um filho de Vitalino,
Severino, funcionário público municipal
que recebe um salário-mínimo pela
tarefa. O acesso é gratuito e ali não
há peças do mestre.
Quem quiser conhecer a arte deixada por Vitalino
tem que ir ao Museu do Barro, criado na cidade
em 1988. Ali, há um acervo de mais de duas
mil peças de cerâmica, distribuída
em cinco ambientes. A Sala Vitalino, um dos maiores
destaques do museu, guarda 67 peças originais
do mestre.
Mestre Galdino - Ceramista,
cantador de viola e poeta de cordel, Mestre Galdino
(Manuel Galdino de Freitas) nasceu em 1928 e foi
um dos artistas mais famosos do Alto do Moura,
em Caruaru. Gostava de fazer moringas e monges,
mas sua arte maior estava nos pequenos bonecos
de barro. Para cada boneco que produzia, costumava
escrever uma história que ia anotando num
caderno - chegou a escrever mais de mil histórias.
Vaidoso, quando alguém indagava se havia
aprendido o ofício com o Mestre Vitalino,
ele respondia em versos: "Galdino é
bonequeiro/e sou poeta também/tem boneco
em minha casa/que bonequeiro não tem/na
arte só devo a Deus/lição
não devo a ninguém". Cuidadoso,
depois de modelar as peças, deixava oito
dias para secar.
Após esse período, as peças
iam para o forno (de tijolo, no fundo do quintal
de sua casa) e passavam dez horas lá dentro.
Finalmente, as peças ficavam mais quatro
horas com o fogo apagado, "para desenfornar".
Caso não seguisse todo esse ritual, dizia
o mestre, "o bicho ficava encruado e feio".
Uma das mais famosas obras do Mestre Galdino,
produzida no final da década de 1980, ocupava
quase metade de sua mesa de trabalho. Era a história,
em barro, de dois irmãos que resolveram
casar e pagaram pelo pecado do incesto tendo 118
filhos deformados. Galdino trabalha na sua pequena
casa, no Alto do Moura, com ajuda da mulher e
dos cinco filhos. Antônio Galdino de Freitas,
um dos filhos do mestre, é hoje outro famoso
artista do Alto do Moura.
Zé Caboclo - Ceramista,
Zé Caboclo nasceu em Caruaru, em 1919.
Juntamente com o Mestre Vitalino e Manuel Eudócio,
formou o mais representativo trio de artistas
do barro do Alto do Moura. Filho de louceira,
desde criança produzia bois, cavalos e
outros brinquedos de barro para vender na feira
da cidade.
Depois, passou aos bonecos mais elaborados -como
os que representam cenas típicas do Nordeste
rural ou profissionais como dentista e médico
em atividade. Ousado, inovou o universo dos chamados
bonecos de Vitalino, ao modelar peças como
a Virgem Maria usando um vestido de cores berrantes;
figuras do bumba-meu-boi, do Maracatu, além
de peças de mais de um metro de tamanho,
sendo metade jarra e metade estátua de
personagem como Padre Cícero, Lampião
e Maria Bonita. Morreu, de esquistossomose, em
1973, deixando mulher e filhos como seguidores.
Manuel Eudócio - Manuel
Eudócio nasceu no Alto do Moura, Caruaru,
em 1931, de uma família que ganhava a vida
produzindo peças de cerâmica utilitária
para vender na feira da cidade. Assim, conheceu
o trabalho com o barro desde criança, quando
fazia brinquedos para uso próprio, sem
nenhuma outra pretensão.
No final da década de 1940, com a chegada
ao povoado do Mestre Vitalino (de quem foi aprendiz),
passou a modelar bonecos para vender nas feiras-livres
e nunca mais abandonaria a arte do barro.
Sempre fez todo tipo de peças -Lampião,
Maria Bonita, médico operando doente, casamento
na roça, dentista extraindo dente etc.-
mas nunca escondeu sua preferência pelo
famoso boi de barro, uma das primeiras peças
desse tipo de cerâmica. Pintadas a óleo
ou sem nenhuma pintura.
|