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Recife iluminada por lampiões
a base de óleo de mamona
Até 1822, as ruas do Recife não
tinham iluminação pública
de qualquer tipo, só eram iluminadas durante
as chamadas grandes noites. Entre estas ocasiões
especiais, estavam as festas de final de ano e
o nascimento de um príncipe na Côrte,
Rio de Janeiro. E o curioso dessa história
é que, mesmo sem ter suas ruas iluminadas,
todos os recifenses eram obrigados a pagar um
imposto para custear a iluminação
da Côrte.
O serviço de iluminação
pública do Recife foi inaugurado em maio
de 1822.
Os lampiões nas calçadas eram alimentados
com óleo de mamona, que a população
chamava de óleo de carrapateira. Os recifenses
continuaram pagando o imposto para custear a iluminação
do Rio de Janeiro até 1827, ano em que
o governo decidiu que o arrecadado com o tributo
passaria a ser aplicado na Capital da Província.
Em 1857, os lampiões da cidade passaram
a utilizar como combustível o óleo
de peixe, o que melhorou o desempenho da iluminação.
Os postes ainda eram poucos, dezenas deles, mas
o suficiente para que a população
se orgulhasse do serviço que deu vida noturna
a cidade.
Gasômetro de São José
é inaugurado em 1859
A 26 de abril de 1856, dois comerciantes (Felipe
Lopes Neto e Hény Gibson) e o engenheiro
Manuel Barros Barreto se associam e firmam, com
o governo, um contrato para instalação
de gás no Recife, que seria fornecido por
combustores, com luz equivalente, em densidade,
a dez velas de espermacete.
Eles teriam o direito de explorar o serviço
por trinta anos, mas não chegaram a concretizar
seus planos. Transferiram o contrato para a empresa
Roston Roocker & Cia, que também desistiu
e repassou o projeto para a empresa Fielden Brothers.
Foi esta última empresa que concretizou
a novo serviço de iluminação
do Recife. Iniciou as obras de instalação
de um gasômetro, no bairro de São
José, e depois construiu o encanamento
e instalou os combustores. O tão esperado
gasômetro foi inaugurado a 26 de abril de
1859.
O sistema de iluminação pública
do Recife, a gás carbônico, foi inaugurado,
festivamente, um mês depois (26/05/1859).
Naquela ocasião, a cidade já dispunha
de 1.037 lampiões e a iluminação
tornou-se bem mais potente.
Estação de trem e mercado,
dois nobres pontos de luz
Antes mesmo que o Recife ganhasse o serviço
de iluminação pública por
energia elétrica, dois pontos da cidade
já dispunham desse tipo de iluminação:
a Estação Central, da rede ferroviária,
e o Mercado do Derby, este construído pelo
empresário Delmiro Gouveia que, mais tarde,
seria o pioneiro na exploração do
Rio São Francisco para a geração
de energia.
A luz vinha de geradores e apareceu pela primeira
vez em 1890, na estação ferroviária,
atual Museu do Trem, que também estendeu
o benefício para a pequena praça
que ainda hoje existe em frente ao seu prédio.
Já o Mercado do Derby, que funcionou onde
hoje fica o quartel da Polícia Militar,
no Derby, foi inaugurado em 1898. Era uma espécie
de precursor dos atuais shoppings, num imponente
prédio onde se vendia de tudo, de carne,
artigos importados, verduras, até gelo
ou jornais.
E com uma grande atração: luz elétrica,
que proporcionou aos comerciantes estenderem o
horário comercial de suas lojas até
às 8h da noite. Na frente do mercado, foi
criada uma área de lazer, onde as festas
para crianças e adultos, realizadas à
noite, atraíam multidões. Era o
ponto mais concorrido do Recife.
O Mercado do Derby (ou Mercado Modelo Coelho
Cintra, seu nome oficial) foi destruído
por um incêndio, na madrugada de 01 de janeiro
de 1900. Dizem que o incêndio foi criminoso
e que os seus autores foram os inimigos políticos
de Delmiro Gouveia, na época chefiados
pelo vice-presidente da República, o pernambucano
Rosa e Silva.
O prédio ficou abandonado até 1909,
quando foi recuperado e passou a abrigar a Escola
de Aprendizes de Artífices. Tempos mais
tarde, o edifício do velho mercado virou
quartel da Polícia Militar. Quartel que
ainda hoje existe no local.
Olinda pioneira
Antes mesmo do Recife, Olinda foi a primeira
cidade do Nordeste brasileiro a contar com um
sistema de iluminação pública
através de energia elétrica. O fato
aconteceu a 14 de julho de 1913, quando a Companhia
Santa Tereza (Empreza de Illuminação
Electrica e Abastecimento D’Água
da Cidade de Olinda) inaugurou esse serviço
na cidade. Até então, Olinda contou
apenas com iluminação a gás,
sistema também gerido pela Companhia Santa
Tereza, de propriedade do empresário Claudino
Coelho Leal.
Energia elétrica põe fim
aos bondes puxados a burros
A 27 de outubro de 1913 é assinado o contrato,
entre o governo estadual e a empresa The Pernambuco
Tramways and Company Limited, para implantar os
serviços de iluminação pública
e residencial no Recife. A partir de então,
gradativamente a cidade passou a ser iluminada,
mas seria somente no ano seguinte, com a inauguração
do serviço de bondes elétricos,
a 13 de maio de 1914, que a cidade teria luz elétrica
em larga escala.
O bonde, transporte coletivo da época,
também era explorado pela Pernambuco Tramways,
deu novo impulso ao desenvolvimento da Capital
e circulou até o final da década
de 1950.
No tempo em que o transporte coletivo puxado
a burros foi aposentado, havia máquinas
geradoras de energia elétrica para abastecimento
da rede de bondes, à base de 500 volts,
e duas estações rebaixadoras de
corrente: uma na Rua Gervásio Pires e outra
na Rua das Graças.
Essas estações transformavam a
corrente alternada em contínua e, com o
sistema já implantado, foi fácil
adaptar o fornecimento de energia elétrica
para as residências, substituindo a luz
do gás carbônico. A energia era gerada
por uma termelétrica, construída
nas proximidades da Estação Central,
com turbinas a vapor, movidas inicialmente a carvão
e, depois, a óleo.
O banco de transformadores de corrente ficava
na Rua do Sol e a rede de distribuição
tinha postes de madeira e de ferro. A corrente
fornecida pela usina era de 220 volts mas, como
o serviço não era perfeito, em alguns
lugares da cidade não chegava nem a 180
volts. Nestas áreas, a iluminação
era fraca e o rádio tocava baixinho, como
se fosse um rádio com pilhas fracas.
Apesar dos problemas técnicos iniciais,
esse primeiro sistema de iluminação
pública à base de energia elétrica
deu grande contribuição ao desenvolvimento
do Recife. E continuaria sendo utilizado até
mesmo depois da chegada da energia do São
Francisco, para reforçar o abastecimento
da cidade.
Tem início em Pernambuco a era
das hidrelétricas
O Recife passou a contar com energia elétrica
gerada pelo Rio São Francisco no dia 01
de dezembro de 1954, às 06h da manhã,
quando a Companhia Hidroelétrica do São
Francisco-Chesf ligou o primeiro circuito para
alimentar a rede da capital pernambucana.
A energia vinha da Hidrelétrica de Paulo
Afonso, que acabara de ser construída em
território baiano e que seria inaugurada
oficialmente a 15 de janeiro de 1955, com a presença
do então presidente da República,
João Café Filho.
Naquela época, a cidade era iluminada
pelo sistema da Pernambuco Tramways, através
de termelétrica, que já não
conseguia atender as necessidades dos consumidores.
Daí, a chegada da energia elétrica
de Paulo Afonso (que também passou a iluminar
a cidade de Salvador e outras regiões do
Nordeste) ter sido celebrada com festas.
Mas, houve problemas, também. Com a usina
ainda em fase de testes, o governo levou a energia
da Chesf para outras cidades, o sistema apresentou
falhas e vieram os protestos.
Foi nessa fase, por exemplo, que a população
da cidade de Jaboatão saiu às ruas
para protestar contra os apagões programados
por um rigoroso plano de racionamento, adotado
pelas autoridades enquanto as falhas no sistema
de transmissão eram reparadas. (Veja o
texto População de Jaboatão
foi às ruas para impedir apagões).
Quando o Recife foi iluminada pela energia de
Paulo Afonso, já haviam passados 41 anos
da primeira experiência de utilização
das águas do Rio São Francisco para
a produção de energia elétrica.
O pioneiro desse sistema foi o empresário
cearense Delmiro Gouveia, que em 1913 inaugurou,
no penhasco da cachoeira de Paulo Afonso, na margem
alagoana do rio, uma pequena hidrelétrica,
para mover uma fábrica de linhas de coser
e iluminar uma vila operária, instaladas
por ele na localidade de Pedras (AL), a 24 km
dali.
Pernambuco já foi atingido por
apagões
Nos últimos 15 anos, os pernambucanos
presenciaram, pelo menos, dois grandes apagões
acidentais. Um deles ocorreu em 1987, quando o
Estado ficou totalmente às escuras por
cerca de três horas. Mas, o blecaute que
mais danos causou ao Estado ocorreu em agosto
de 2000 e foi parcial.
Atingiu apenas os municípios de Jaboatão
dos Guararapes, Cabo de Santo Agostinho, Ipojuca
e Escada, deixando um prejuízo de R$ 8,5
milhões a cerca de 40 indústrias
que operam no Complexo Industrial Portuário
de Suape e demais áreas afetadas. Na ocasião,
a Companhia Hidroelétrica do São
Francisco (Chesf) classifiou o incidente como
o maior apagão dos últimos dez anos
em Pernambuco.
Tudo aconteceu às 18h03m da quinta-feira
24 de agosto de 2000, quando o rompimento de um
cabo na linha de transmissão da Chesf interrompeu
o fornecimento de energia na área sul da
Região Metropolitana do Recife e algumas
cidades da Zona da Mata.
O apagão durou sete horas e trinta minutos
e, de acordo com a Chesf, afetou a vida de 750
mil pessoas. O blecaute comprometeu entre 5% e
7% de toda a carga elétrica do Estado.
Para contornar o problema, a Chesf utilizou 30
homens numa operação de emergência
e o abastecimento na área atingida só
foi totalmente normalizado à 01h33m da
sexta-feira 25 de agosto.
Segundo os técnicos, o rompimento do cabo
que gerou o apagão foi provocado por um
defeito num esforçador (peça que
separa um cabo do outro) instalado num trecho
do município de Moreno, exatamente no cruzamento
da linha de transmissão de 500 quilovolts
que vinha de Paulo Afonso (BA) com outro trecho
de transmissão de energia de 230 quilovolts
para a subestação de Pirapama.
Ou seja, foi um problema operacional. Apesar
de menos abrangente que o de 1987, este último
apagão trouxe mais prejuízos para
Pernambuco porque ocorreu numa área onde
está localizado o pólo industrial
do Estado.
7. População de Jaboatão
foi às ruas para impedir apagões
Muita gente não sabe, mas em Pernambuco
já houve racionamento de energia elétrica
com apagões programados. Aconteceu em 1954
e provocou todo tipo de reação.
Em Jaboatão, a população
foi às ruas e impediu que a Companhia energética
desligasse as luzes da cidade.
A empresa que abastecia o município era
a Pernambuco Tramways, sediada no Recife. Com
a capacidade de produção esgotada
e, para evitar o colapso na Capital, a concessionária
adotou uma série de medidas restritivas,
sendo a principal delas a suspensão temporária
da energia enviada para Jaboatão.
O racionamento entrou em vigor no início
de novembro e, diariamente, Jaboatão ficava
três horas às escuras, entre 17h30m
e 20h30m. O corte era feito por um funcionário
da empresa, na localidade de Volta do Caranguejo,
no distrito de Socorro. Apesar dos transtornos
causados, os primeiros dias de apagões
foram encarados com serenidade pela população.
Um mês mais tarde, quando a Pernambuco
Tramways passou a receber energia gerada pela
Companhia Hidroelétrica do São Francisco-Chesf
e, mesmo assim, não suspendeu o racionamento,
os ânimos se exaltaram.
A situação azedou de vez no dia
12 de dezembro, quando dezenas de pessoas se dirigiram
à Volta do Caranguejo, dispostas a impedir
a interrupção do fornecimento de
energia. Sem condições de enfrentar
a multidão, o funcionário encarregado
de desligar a rede desistiu de sua tarefa e, naquela
noite, não houve apagão na cidade.
A mobilização popular prosseguiu
nos dois dias seguintes, exatamente da mesma forma.
Mas, como não havia mesmo energia suficiente,
tudo terminou com um acordo: o apagão foi
reduzido para apenas uma hora, entre às
17h30m e 18h30m.
Ao justificar os protestos, a população
de Jaboatão indagava: por que os apagões
no mesmo momento em que o governo festejava a
conclusão da primeira grande hidrelétrica
da Chesf, que iria iluminar todo o Nordeste?
O problema era que a Usina de Paulo Afonso ainda
operava em caráter experimental e, toda
vez que ocorria algum problema nos geradores ou
na linha de transmissão entre Paulo Afonso
e a subestação do Bonji, a Pernambuco
Tramways era obrigada a operar somente com a sua
já defasada termelétrica e o racionamento
era inevitável. Os apagões, também.
Detalhes curiosos: a atitude dos moradores de
Jaboatão foi considerada ousada porque
ocorreu num dia em que o presidente da República,
Café Filho, permaneceu seis horas no Recife,
inaugurando obras, o que não inibiu o povo
de ir às ruas.
O país vivia uma grave crise política,
desencadeada pelo suicídio de Getúlio
Vargas. As autoridades não se entendiam
sobre a tarifa de energia a ser cobrada pela novata
Chesf. E, diferente do que ocorre hoje, o Nordeste
não estava ameaçado de blecaute.
Pelo contrário, iniciava a sua fase de
grande gerador de energia, através de modernas
hidrelétricas no Rio São Francisco.
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