|
Os políticos de-votos de Frei
Damião
Falecido em 1997, Frei Damião de Bozzano
era um religioso carismático, um missionário
tido como santo pelos sertanejos nordestinos
– só comparado ao lendário
Padre Cícero Romão, o santo
do Juazeiro do Norte.
Por essas razões, o frade capuchinho sempre
despertou a cobiça de políticos
que o agraciavam com medalhas, títulos
e honrarias ou que simplesmente posavam ao seu
lado e, depois, faziam de tudo isso material de
propaganda eleitoral.
 |
São inúmeros
os exemplos de candidatos a vereador, prefeito,
governador, deputado etc. que fizeram de
Frei Damião um cabo eleitoral. E,
na maioria das vezes, o frade sequer era
informado sobre o uso de sua foto em cartazes,
panfletos e outras peças.
O caso mais acintoso de uso da popularidade
de Frei Damião na cata de votos foi
o do ex-presidente Fernando Collor, que
fez toda campanha presidencial no Nordeste
alardeando sua “amizade” com
o frade.
|
Mas, Pernambuco também teve os seus políticos
de-votos do capuchinho.
Nilo Coelho foi um desses políticos. Sertanejo
de nascimento e com bases eleitorais em Petrolina
(também sertão do Estado, onde o
frade era queridíssimo), por várias
vezes ele pegou carona na popularidade de Frei
Damião, de olho no eleitorado.
 |
Quando governador,
por exemplo, em 1971 Nilo Coelho concedeu
a Frei Damião a Medalha Pernambucana
do Mérito e a foto da solenidade de
entrega da honraria foi estampada em todos
os jornais do Estado. |
| Na
Assembléia Legislativa, em 1977 Frei
Damião recebe o título de Cidadão
Pernambucano. |
Em 1978, ao disputar as eleições
ao Senado, novamente Nilo Coelho apareceu ao lado
de Frei Damião. E, desta vez, numa peça
de campanha eleitoral: um panfleto (distribuído
aos milhares) com a foto dos dois e o seguinte
texto:
“Com a graça de Deus e a minha bênção:
eu recomendo meu amigo Nilo Coelho para o Senado.
Frei Damião.” Uma curiosidade: esta
suposta assinatura do frade tinha a mesma grafia
de todo o resto do texto do panfleto. Ou seja,
não era real.
O ex-deputado federal Joaquim Francisco também
gostava de posar para fotos ao lado de Frei Damião,
o que, aliás, ocorreu várias vezes.
Mas, em nenhuma ocasião o fato foi tão
espetacular quanto ao que se deu no dia 02 de
setembro de 1991.
 |
Na época governador de
Pernambuco, Joaquim decidiu conceder uma pensão
de dois salários-mínimos a Frei
Damião e, como o frade estava doente,
ficou decidido que a lei concedendo o benefício
seria assinada no leito do enfermo. E assim
foi feito. |
No outro dia, os jornais estamparam a foto que
mostrava: Frei Damião no leito hospitalar
segurando um crucifixo, o governador sentado numa
carteira escolar assinando papéis e, ao
fundo, uma dezena de deputados governistas.
De todos os políticos que, de uma forma
ou de outra, utilizaram Frei Damião para
chegar juntos aos eleitores, provavelmente nenhum
comungava, de fato, com as idéias do religioso
que, em pleno século 20, pregava coisas
do tipo:
"Um beijo dado no rosto da namorada, como
um beijo dado numa parenta, não tem nada
demais, estão ouvindo? Agora, um beijo
na boca, um beijo de língua, isso não.
É pecado."
|