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dia em que Jarbas deu uma de repórter
O governador de Pernambuco, Jarbas Vasconcelos,
no passado já deu uma de repórter.
Foi em 1973, quando, disfarçado de turista,
ele entrou numa fazenda em Brejo da Madre Deus,
a 190 km do Recife, para cumprir uma missão:
documentar a suspeita de que máquinas e
trabalhadores pagos pelo governo estariam sendo
utilizados para realizar obras numa propriedade
particular do então governador do Estado,
Eraldo Gueiros Leite. E o episódio teve
grande repercussão.
Na época, Jarbas Vasconcelos era deputado
pelo MDB, líder da Oposição
na Assembléia Legislativa, e contratou
um fotógrafo que também se fez passar
por turista. Na propriedade de Eraldo Gueiros,
a Fazenda Salobro, de 90 hectares, os dois fotografaram
equipamentos e operários de duas empresas
estatais (o Departamento Estadual de Poços
e Açudagem e a Companhia de Eletrificação
de Pernambuco) executando obras de eletrificação
e perfuração de poços.
As fotos ficaram guardadas por duas semanas até
que, no dia 27 de abril, foram divulgadas. Primeiro,
Jarbas exibiu as fotografias no plenário
da Assembléia Legislativa do Estado, durante
uma tumultuada sessão, confirmando, assim,
"tratar-se evidentemente de um ato imoral".
No dia seguinte, as fotos acabariam publicadas
pelos jornais pernambucanos e de outros estados
brasileiros, entre os quais o Jornal da Tarde,
vespertino paulista.
Em meio à sessão durante a qual
as fotos foram exibidas, o líder do Governo,
Antônio Correia de Oliveira, saiu em defesa
de Eraldo Gueiros, dizendo que os trabalhos na
fazenda do governador foram pagos das seguintes
formas: a perfuração dos poços
teria sido quitada ao Departamento de Poços
e Açudagem com o cheque de nº 069322,
do Bandepe; e a eletrificação rural
fora paga à Celpe, com 170 notas promissoras
de CR$ 76,00 cada. E, assim, tudo parecia resolvido.
Mas, a explicação de Antônio
Correia não convenceu muita gente. O deputado
Antônio Airton Benjamim, governista dissidente,
foi um exemplo. Exibindo um exemplar do Diário
Oficial do Estado daquela semana, ele leu em plenário
a notícia sobre a assinatura de um contrato
no valor de 7,3 milhões, entre o Governo
do Estado (via Celpe) e várias cooperativas
agrícolas, para eletrificação
de propriedades rurais. E a legenda de uma foto
da notícia dizia o seguinte:
“O chefe do executivo dirige-se aos presidentes
de cooperativas do interior, afirmando que também
participará, como simples cidadão,
dos benefícios da eletrificação
rural.”
A partir daquele momento, a sessão na
Assembléia Legislativa ganhou ares de guerra.
A Oposição queria pedir o impeachment
de Eraldo Gueiros, com base no artigo 173 da Constituição
Federal, segundo o qual “não é
permitido a um governador de Estado fazer contratos
com companhias do governo ou naquelas em que o
governo é o maior acionista”. Mas,
para pedir o impeachment, a Oposição
teria que reunir os votos de 2/3 dos deputados,
coisa que nem de longe ela conseguiria.
E, assim, com aquela tensa sessão na Assembléia
Legislativa (que acabaria pondo mais fogo na velha
briga Governo/Opisição), estaria
encerrado o episódio das reveladoras fotografias
realizadas por Jarbas Vasconcelos.
Mas, um detalhe de toda essa história
ainda hoje provoca indagação:
Se, durante a sessão em que Jarbas apresentou
as fotos, Pedro Correia já tinha em mãos
os argumentos para defender o Governo, isso significa
que o Governo sabia antecipadamente que as fotos
seriam divulgadas. Por que, então, o Governo
nada fez para tentar impedir que a divulgação
se consumasse, já que esse tipo de intervenção
era “normal” durante a ditadura militar?
Teria sido descuido?
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