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Baixarias de campanhas políticas
em 78 rotações
O famoso bombardeio entre candidatos em campanha
não é criação de marqueteiros
da era digital. No tempo dos discos em 78 rotações,
as campanhas eleitorais já eram fartas
no que hoje chamamos de baixarias.
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Confira na entrevista com Samuel
Valente, dono do maior acervo de peças
utilizadas em campanhas eleitorais no Estado
desde o início do século passado.
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PE-AZ - O que levou
o senhor a se interessar por músicas e
jingles políticos?
Samuel Valente - Eu tinha dez
anos quando morreu Francisco Alves e as três
rádios da época, Tamandaré,
Clube e Jornal, começaram a tocar suas
músicas e eu, sem saber explicar o fascínio
que tinha a voz dele, pedi a meu pai para comprar
os discos do cantor e comecei a colecionar. Depois,
ampliei a coleção para toda a música
popular. Nos anos 1960, aos 18 anos, comecei a
fazer política estudantil e me interessei
por jingles políticos. Essa época
coincidiu com a campanha para presidente da República,
cujos candidatos eram Jânio Quadros, Adhemar
de Barros e o general Lott. Para conseguir jingles
e discos, eu até roubava, porque sabia
que esse material, se ficasse com outras pessoas,
acabaria levando fim. E, comigo, seria preservado,
como está sendo até hoje. Para conseguir
esse material, muitas vezes eu ia a sedes dos
partidos, fingindo que era filiado.
PE-AZ - Esse material
de sua coleção data de que época?
SV - Depois de algum tempo,
eu também consegui encontrar coisas já
feitas a partir da Revolução de
30. Tenho toda a trajetória de Getúlio
Vargas, de 1930, do Estado Novo, de quando ele
foi eleito pelo voto popular, passando pelas campanhas
dos jornalistas contra Getúlio, principalmente
Carlos Lacerda contra Getúlio. Além
de músicas feitas especialmente para campanhas,
comecei a colecionar também músicas
comerciais com conotações políticas.
PE-AZ - Quanto custava,
na época, um discos desses?
SV - Qualquer preço,
até roubar, como eu falei.
PE-AZ - Como o senhor faz para manter
hoje o seu acervo?
SV - Eu me relaciono com colecionadores
de todo o Brasil, do Rio de Janeiro ao Ceará.
PE-AZ - O senhor é o
único no Recife que tem uma coleção
desse tipo?
SV - Em jingles e músicas
de campanhas políticas, acredito que ninguém
tenha um acervo com esse peso. Tenho, por exemplo,
um disco que foi da campanha do não ao
Parlamentarismo, em que Bibi Ferreira é
apresentadora e canta com a participação
de Elza Soares, Jorge Veiga, Dircinha Batista,
Elizete Cardoso, Luís Vieira, Ivon Curi,
Isaurinha Garcia, Jorge Goulart e a bandinha de
Altamiro Carrilho. Tenho também um disco
gravado para a campanha de vice-presidente de
João Goulart, porque na época o
voto era desvinculado. Tenho uma coleção
de discos sobre o ciclo de Getúlio Vargas,
num desses discos há uma gravação
de Silvino Neto interpretando um discurso do presidente
como se fosse o próprio Getúlio,
é a carta testamento. Tenho também
um discurso da campanha do brigadeiro Eduardo
Gomes, em 78 rotações. E muitas
coisas. Não só de campanhas, como
também de outros temas. Um exemplo é
a primeira gravação do hino nacional
cantado, feita por Vicente Celestino, em 1917.
PE-AZ - E discos para campanhas eleitorais
em Pernambuco?
SV - Tenho todos os discos das
campanhas de Miguel Arraes, gravados pela Rozemblit
e outras gravadoras do Sul. Em um desses discos,
tem a gravação de "Zé
Ninguém", da campanha de 1962, quando
Arraes foi eleito governador pela primeira vez.
Essa música foi muito importante para a
campanha de Arraes no interior, porque as forças
da direita, o pessoal de João Cleofas,
que tinha por traz o capital americano, chamava
Arraes de Zé Ninguém. Outro disco
raro do meu acervo é o gravado por Jarbas
Maranhão, na campanha para governador de
Pernambuco em 1958. É uma paródia
para a marcha "Vassourinhas", com letra
do ex-senador Antônio Farias. Tenho, ainda,
músicas gravadas para outros candidatos
ao governo de Pernambuco, desde Agamenon Magalhães
em 1950 e uma gravação feita para
a campanha do general Dantas Barreto que disputou
o governo de Pernambuco, em 1911, com Rosa e Silva.
É uma paródia da música "Vassourinhas"
também. Desde essa época que essa
música vem sendo utilizada por políticos.
PE-AZ - Quais os compositores que mais
faziam músicas para campanhas políticas?
SV - Em âmbito nacional,
foram Silvino Mota, Nássara, João
de Barros (o "Braguinha"), Herivelto
Martins. Isso, músicas alusivas a fatos
ou a políticos mas incluídas nos
seus discos comerciais.
PE-AZ - E aqui em Pernambuco?
SV - Em Pernambuco, o compositor
que fez o maior número de músicas
para a política foi Nelson Ferreira. Ele
fazia desde 1930. Em 30, Estácio Coimbra
era governador de Pernambuco e, quando eclodiu
a revolução, ele bolou uma fuga
estratégica. Ele pensava que o movimento
não teria aquela amplitude e pretendia
retornar. Fugiu ele e Gilberto Freyre, que na
época era seu chefe de gabinete. Então,
Nelson Ferreira fez para o carnaval de 1931 a
música "A canoa virou", que dizia
assim: "A canoa virou/Seu Estácio
fugiu/E o beicinho do beiçola/Nunca mais
ninguém viu". Depois que Cid Sampaio
foi eleito governador, em 1958, Nelson Ferreira
fez para o carnaval de 1959 a música "O
Bloco da Vitória" e essa música
Cid até hoje usa nas suas campanhas.
PE-AZ - E Capiba, também fez músicas
para políticos?
SV - Não, Capiba nunca
fez música para política. Outros
compositores pernambucanos que fizeram músicas
para políticos são José Menezes,
Manuel Gilberto, Luiz Queiroga, Fernando da Câmara
Cascudo, Limoeiro, Paulo Uchoa, Miguel Newton,
Guedes Peixoto, N. Xavier, Edmundo Andrade, Sebastião
Lopes, Edno Mendes, Aluízio Falcão,
Teca Calazans, Jota Macedo e Onildo Almeida. Agora,
o cantor que mais gravou jingles e músicas
especialmente para políticos foi Claudionor
Germano.
PE-AZ - O senhor é contra a utilização
de músicas em campanhas políticas,
de músicas tradicionais que não
sejam aquelas feitas especialmente para as campanhas
eleitorais?
SV - Eu acho que o compositor
deve criar uma música específica
para as campanhas. Porque, senão prejudica
a composição. A música que
for utilizada em campanha, seja música
clássica, seja música popular, ela
fica uma música marcada, fica uma música
amaldiçoada. Claudionor Germano me disse,
um dia, que não pode mais cantar o frevo
"Voltei, Recife", que é um clássico
do nosso carnaval mas que, depois Joaquim Francisco
usou como tempo de uma sua campanha, só
quem aceita ouvir essa música são
os adeptos de Joaquim Francisco.
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Outra história interessante
sobre essa maldição de música
utilizada em campanhas aconteceu com a frevo
"Fogão", que foi utilizado
por Miguel Arraes, na campanha de 1986. No
último concurso de miss Pernambuco,
que foi realizado no Clube Internacional e
transmitido pelo SBT, o maestro Dimas Sedícia
havia preparado uma seqüência de
músicas pernambucanas, incluindo entre
elas o "Fogão". |
Como Joaquim Francisco já havia assumido
a prefeitura, que apoiava o concurso, então
eles censuraram o frevo "Fogão",
disseram que a música não poderia
ser tocada porque iria lembram Miguel Arraes.
Quer dizer, a música do nosso carnaval
vai se acabar por conta da política. O
nosso frevo acaba prejudicado, mas a música
não tem nada a ver com a história.
PE-AZ - Essa maldição,
essa reação do público contra
músicas que são utilizadas em campanhas
políticas é coisa antiga?
SV - Não, esse comportamento
do público é recente.
PE-AZ - E os compositores tinham posições
ideológicas definidas?
SV - Olhe, Limoeiro fazia músicas
mais para a esquerda, embora ele possa ter feito
para outras facções, originárias
de rachas. Nelson Ferreira fez mais para o centro-direita.
Em 1962, por exemplo, Nelson Ferreira fez música
para Armando Monteiro que se dizia de centro.
Fez para João Cleofas, que era ultra-direita,
mas não fez para Arraes que era de esquerda,
embora para ele, a pedido de Cid Sampaio, tenha
feito a música de campanha para prefeito,
em 1959. Quem fez músicas para Arraes foi
Manuel Gilberto. Havia as correntes, bem definidas.
Eu também já fiz música para
Arraes.
PE-AZ - E os compositores nacionais?
SV - Herivelto Martins, que
era um grande compositor, não se definia,
mas gravava mais para a direita. Chico Buarque
só faz para a esquerda. Luiz Gonzaga é
outro que não se definia, fez músicas
para todas as correntes ideológicas. Oswaldo
Santiago, pernambucano, também era indefinido,
fez um hino para João Pessoa, quando ele
foi assassinado em 1930, e esse hino foi gravado
por Francisco Alves, eu tenho a gravação
aqui. Um trecho do hino diz assim: "João
Pessoa, bravo filho do sertão/Toda a Pátria
espera, um dia, a tua ressurreição/João
Pessoa, o teu vulgo varonil/Vive ainda, vive ainda
no coração do Brasil..."
PE-AZ - Como o senhor classifica os tipos
de músicas políticas que temos?
SV - Nós temos a música
feita especialmente para campanhas políticas,
quando música e letra são compostas
para esse fim. Temos a paródia. E aquela
que podemos chamar, vamos dizer assim, de "música
comercial". Ou seja, é aquela música
que o cantor, o compositor inclui no seu disco
mas tem conotações políticas.
Por exemplo, em 1954, quando Getúlio Vargas
ainda era vivo, um dos grandes sucessos do carnaval
daquele ano foi "Se eu fosse Getúlio",
que fazia críticas ao presidente da República.
Quando Getúlio foi deposto, em 1945, Francisco
Alves gravou a música "O Palacete
do Catete", que fazia referência a
um cidadão que morava no palácio,
que era exatamente Getúlio.
Herivelto Martins também gravou um samba
para o carnaval que era uma crítica a Getúlio
Vargas, isso tudo em discos convencionais. Um
trecho desse samba dizia assim: "Vou assistir
de camarote o teu fracasso/Palhaço, palhaço/Quem
gargalha demais/Sem pensar no que faz/Quase nunca
termina em paz..."
| PE-AZ -
Até agora, o senhor falou basicamente
do ser acervo de discos. E o que existe, na
sua coleção, em fitas? |
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SV - Tenho vozes de políticos,
de vários políticos. Carlos Lacerda,
ele próprio falando no rádio, quando
ainda era vereador. De Juscelino, quando ele era
prefeito de Belo Horizonte, na década de
40. Discursos de Gustavo Capanema. O histórico
discurso de Oswaldo Aranha, sobre o túmulo
de Getúlio, em São Borja, que muita
gente acha que não foi gravado, mas foi
porque eu tenho cópia aqui. Tenho trinta
a quarenta discursos, na íntegra, de Getúlio.
Discursos de Carlos Lacerda em 1936 e muitos outros.
PE-AZ - O seu acervo se limita apenas
a temas políticos?
SV - Não, eu também
tenho muita coisa ligada a anúncios comerciais,
sobretudo para rádio. Quem não se
lembra de anúncios comerciais como estes:
"Tosse, roquidão? Tome Xarope Brandão,
o defensor do pulmão!" "A laranjada
Cliper é um produto União, o melhor
refrigerante da nova geração!"
"Todo gordo quer emagrecer, todo magro quer
engordar. Para o gordo, não tem o que fazer.
Para o magro, biscoitos pilar!" Se você
comparar com a qualidade técnica da publicidade
hoje, os anúncios antigos eram coisas muito
ingênuas.
PE-AZ - Qual o jingle mais antigo, de
Pernambuco, que você tem em seu acervo?
SV - É um jingle gravado
pelos Azes do Ritmo no final da década
de 40, entre 1947 e 1948. É um besteirol
danado, mas interessa porque é parte da
nossa memória publicitária. O texto
dizia exatamente o seguinte: "Se você
está doente/Ou se tem dor de cabeça/Procure
um médico, não se aborreça/Vá
ao instituto brasileiro de assistência ao
lar/Recife Lar, Recife Lar, Recife Lar".
Isso era um reclame (anúncio) da Recifelar,
que funcionava também como uma espécie
de plano de saúde dos tempos atuais.
PE-AZ - Como o sr. Avalia as campanhas
eleitorais de décadas passadas e as de
hoje?
SV - Só posso falar em
nível de Pernambuco. As agressões
eram as mesmas. A única diferença
é que o povo só tomava conhecimento
dessas agressões, dois, três dias
depois, porque o processo de comunicação
era muito lento. Não tínhamos a
televisão, não tínhamos telefotos,
não tínhamos esses outros processos
modernos de comunicação. Tínhamos
já o rádio mas, mesmo assim, a coisa
era um pouco devagar. Hoje, nós assistimos
as agressões ao vivo, na hora em que elas
acontecem.
PE-AZ - Dê um exemplo dessas agressões.
SV - Em 1959, durante a eleição
para a prefeitura do Recife, Arraes (que foi apresentado
por Cid Sampaio e acabou vencendo) era um dos
candidatos e o outro candidato era Antônio
Pereira, que era dado a jogos de cartas, jogava
muito baralho e tal. Então, os partidários
de Arraes despejaram uma panfletagem muito grande
na cidade, afirmando que Antônio Pereira
era jogador inveterado.
PE-AZ - E a qualidade técnica
das campanhas de ontem e de hoje?
SV - Bom, hoje, não resta
dúvida que a qualidade técnica das
campanhas é bem superior. Hoje, os políticos
fazem uma verdadeira produção, aproveitam
todos os recursos técnicos disponíveis,
de forma profissional.
PE-AZ - O sr. Guarda pilhas de discos,
papéis, fitas e tem bastante dificuldade
de acomodar tudo no sua casa. Esse material não
poderia ser preservado no lugar onde foi produzido?
SV - Era ideal que fosse assim.
Mas, como não tenho brasa na língua,
eu digo, mesmo: se não aparecer um louco
como eu para preservar essas coisas, todo esse
material é facilmente destruído.
A Rádio Jornal do Commercio, por exemplo,
quando Ivan Lima assumiu há alguns anos
atrás, mandou queimar todos os artefatos,
programas gravados ao vivo, material de propaganda
política, comerciais. Ele, o Ivan Lima,
achava que tudo aquilo era entulho. A Rádio
Clube também queimou a maior parte dos
seus arquivos, principalmente o material mais
antigo. Se todos nós agirmos assim, como
vamos preservar nossa memória?
PE-AZ - Qual a força da música
numa campanha?
SV - Acho que o jingle, a música
de encomenda, não chega a eleger candidatos.
Se ele for ruim, não há Chico Buarque
que dê jeito. Admito que a música
tem uma grande influência sobre o povo e,
de certo modo, ajuda bastante. O refrão
é sempre a parte que o povo guarda mais
na memória, não esquece, magnetiza,
prende. Esse impacto emocional, naturalmente ajuda
demais. (Entrevista concedida originalmente aos
repórteres Marcos Cirano e Patrícia
Raposo, publicada no jornal Folha de Pernambuco,
1989).
PE-AZ - Atualmente, o senhor ainda alimenta
o seu acervo de peças usadas em campanhas
eleitorais?
SV - Não. Deixei de colecionar
mentiras que se transformam na frustração
do povo.
Veja
também: sequestro do então deputado
Fernando Lyra e da mulher do ex-senador Marcos
Freire
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