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Recife elege o seu primeiro prefeito
operário e a "onda vermelha"
do Partido dos Trabalhadores invade a cidade
A eleição municipal de 2000 foi
uma das mais importantes de toda a história
política de Pernambuco, só comparável
com o pleito estadual de 1998 em que Jarbas Vasconcelos
esmagou eleitoralmente o mito Miguel Arraes. E
essa importância tem duas explicações.
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Uma: porque foi em 2000 que
o Recife elegeu o seu primeiro prefeito-operário.
Outra: porque o eleito (o metalúrgico
João Paulo, do PT) derrotou exatamente
a gigantesca aliança política
montada por Jarbas, a mais poderosa que o
Estado já viu. |
Essa aliança era formada por Jarbas Vasconcelos
(governador em pleno exercício do cargo),
outros representantes da chamada "esquerda"
e todas as forças eleitorais da chamada
"direita", um bloco de políticos
de prestígio que, ao longo de décadas,
nunca estiveram à margem do poder.
O candidato derrotado pelo operário João
Paulo foi Roberto Magalhães, um jurista
de prestígio nacional, ex-deputado federal,
ex-governador de Pernambuco e então prefeito
do Recife (licenciou-se para disputar a re-eleição),
uma grande liderança pernambucana da chamada
"direita".
Ele entrou na disputa como favorito e tinha a
seu favor não apenas a administração
da prefeitura da Capital, como também o
suporte da administração estadual
e apoio do governo federal.
No palanque de Magalhães, por exemplo,
estavam nada menos que o governador Jarbas Vasconcelos,
o vice-presidente da República, Marco Maciel
e outras autoridades. Portanto, quase ninguém
na Capital acreditava que Roberto Magalhães
perdesse aquela eleição. Pelo contrário:
ele ganharia logo no primeiro turno.
A campanha, como já era hábito
ocorrer em Pernambuco, foi acirrada. No primeiro
turno, além de João Paulo (da coligação
PT/PC do B/PCB e PGT) e Roberto Magalhães
(PFL/PMDB/PSDB/PPB/PRTB/PSC/PSL/PSD/PV/PST/PSDC/PRP
e PTN), também concorreram os candidatos
Carlos Wilson (PPS/PSB/PTB), Vicente André
Gomes (PDT/PMN/PT do B e PAN), Carlos Pantaleão
(PSTU) e Fred Brandt (PHS).
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A aliança pró-Magalhães
tinha estrutura maior que as de todos os outros
candidatos juntos e fez uso desse seu poder
de fogo, levando, inclusive, o governador
a tirar a gravata, em palanque, e anunciar
que iria trabalhar meio expediente, para dedicar
o resto do dia à campanha. A vitória,
dizia o governador, era uma questão
de honra. |
No primeiro turno, Roberto Magalhães se
queixava da desvantagem de ser ele sozinho contra
cinco candidatos, mas, por outro lado, tinha a
maior coligação e lhe sobrava tempo
na televisão para a propaganda eleitoral
gratuita. Já no segundo turno, foi a vez
de João Paulo reclamar, sobretudo contra
as tentativas, veiculadas pela TV, de associar
a sua candidatura à baderna.
Em várias ocasiões, o "Guia
Eleitoral" de Magalhães exibiu cenas
de quebra-quebra nas ruas, informando que aquilo
aconteceu em cidades administradas pelo PT e que
o Recife poderia ser transformada num caos se
elegesse João Paulo. Eram imagens de ruas
repletas de lixo em Belém, Pará,
manifestantes sagrando nas ruas do Distrito Federal
e, no final, vinha a tarja; "A Baderna do
PT".
No PT, uma corrente defendia que o partido respondesse
no mesmo tom os ataques. Outra ala defendia a
tese de não aceitar as provocações
e continuar com a campanha apenas propositiva.
Mas, como o "chumbo era grosso", João
Paulo não agüentou e declarou à
imprensa: "A partir de agora vamos bater,
e bater pesado, nas mentiras que eles estão
criando contra nós. Mas sem baixar o nível.
Vamos deixar que eles se afoguem sozinhos nesse
mar de lama que criaram."
O clima da campanha foi tenso, inclusive porque
no mesmo período a Polícia Militar
(vinculada ao governo estadual) realizou uma das
mais tumultuadas greves da sua história,
com troca de tiros em ruas do Recife e até
mesmo em frente ao Palácio do Governo.
Em que pese esse exacerbado acirramento, felizmente
não morreu ninguém. Da eleição
de 2000, as marca que ficaram foram os tumultuados
episódios de campanha, entre os quais aquele
ocorrido em Boa Viagem quando o candidato Roberto
Magalhães, provocado por militantes oposicionistas,
foi fotografado dando uma banana para a platéia.
E o resultado do pleito, aceito de forma tranqüila
pelos derrotados, foi o seguinte: João
Paulo: 382.988 votos (50,38%) e Roberto Magalhães:
377.153 votos (49,62%). Diferença pró
João Paulo: 5.835 votos (0,76%). Veja,
a seguir, como o comentarista Inaldo Sampaio,
do Jornal do Commercio, analisou a derrota de
Magalhães, destacando o "excesso de
confiança na vitória" e o "tom
arrogante do Guia do PFL":
:: Os erros da campanha de Magalhães
- Por Inaldo Sampaio
Campanha política é feita de erros
e acertos. Há quase um consenso na frente
que apoiou Roberto Magalhães (PFL), segundo
o qual ele cometeu mais erros do que acertos em
sua campanha,particularmente no segundo turno.
O primeiro ponto de convergência sobre
os erros cometidos na campanha diz respeito ao
excesso de confiança na vitória,
no primeiro turno, face aos resultados das pesquisas
que atribuíam ao atual prefeito uma dianteira
confortável. Isso, segundo o candidato
a vice, Sérgio Guerra (PSDB), causou certa
"acomodação" na militância
que, por não acreditar no segundo turno,
não teria se empenhado o suficiente para
liquidar a fatura no primeiro.
O segundo erro de Magalhães, agora no
segundo turno, teria sido a excessiva "ideologização"
da sua campanha, assumindo a sua condição
de "candidato da direita", fato que
empurrou a maioria dos jovens para João
Paulo, além de segmentos expressivos da
classe média que estavam deslocados da
"esquerda" desde a queda do muro de
Berlim.
O mote da "ideologização"
foi dado pela primeira-dama Jane Magalhães,
ao associar o PT a Cuba, MST, greves e todo tipo
de desordens que existem hoje no Brasil.
A "direitização" da campanha,
que teve o aval do Palácio, incomodou pessoas
do próprio PMDB, como foi o caso do secretário
extraordinário e suplente de deputado federal
Maurílio Ferreira Lima.
Num jantar na cãs do líder do PFL,
Inocêncio Oliveira, para discutir a estratégia
do segundo turno, Maurílio lavrou o seu
protesto contra a tentativa de associar João
Paulo a Fidel Castro e o PT à Cuba, na
presença do governador e do prefeito e
de quase todos os deputados federais governistas.
A respeito disso, afirmou o ex-deputado federal
Fernando Lyra (PPS): "Eles (do PFL e do PMDB)
fizeram uma campanha tão reacionária
e tão atada que o combate à ditadura
ficou atual".
Segundo o ex-ministro da Justiça, "ao
endossar essa estratégia, Jarbas Vasconcelos,
que militou na esquerda até 1994, jogou
sua biografia no lixo".
A "estadualização" da
campanha eleitoral também teria sido outro
erro grave do prefeito. Magalhães, que
já tinha seu próprio desgaste, incorporou
o do atual Governo, visível sobretudo entre
os funcionários públicos que estão
sem reajuste de salário há quase
seis anos.
A fixação do outdoor "PT e
Arraes - Greve da Polícia nunca mais"
teria sido outro erro, segundo avaliação
do deputado Joaquim Francisco (PFL) e do senador
Roberto Freire (PPS).
Joaquim, numa reunião com os condutores
da campanha de Magalhães, considerou o
cartaz "desastroso", porque teria contribuído
para levar os PMs a uma nova greve e desmoralizado
a tese de que no atual Governo não haveria
paralisação.
A greve pegou de surpresa o governador e o prefeito
e, além de ter contribuído para
"empurrar" os familiares dos cerca de
16 mil PMs para a Oposição, desmistificou
a mensagem do cartaz de que sou houve greve em
1997 porque o governo de Miguel Arraes era fraco.
Roberto Freire, mesmo tendo apoiado a posição
do governador de endurecer com os grevistas, encarou
o outdoor como uma "provocação"
e disse que o Governo foi o principal culpado
por essa segunda greve, por ter acomodado em cargos
comissionados os líderes da paralisação
de 97. "Se em vez de punição
eles receberam prêmio, tinha que acontecer
o que aconteceu", disse.
Outro erro da campanha teria sido o tom excessivamente
arrogante do Guia do PFL, repetindo as falhas
do primeiro turno, quando a aliança PFL/PMDB/PSDB
poderia ter feito programas mais leves.
Pelo contrário, 'vendeu' arrogância
do início ao fim, culminando com o episódio
da 'banana' em Boa Viagem, fato que tirou de Magalhães
uma parcela expressiva do eleitorado católico,
segundo ele próprio confessou a alguns
amigos.
Há também quem considere "um
erro estratégico" do prefeito não
ter procurado reunir-se com os 320 candidatos
a vereadores de sua coligação que
não foram eleitos, para pedir-lhes empenho
no segundo turno, dado que a maioria deles atribui
a derrota à falta de apoio logístico
do comando da campanha majoritária.
Finalmente, há no PMDB e no PFL quem responsabilize
o deputado federal Sérgio Guerra (PSDB)
pela derrota de Roberto Magalhães, dado
que muitas lideranças desses dois partidos
desaprovaram a escolha dele para ser o candidato
a vice.
Um desses inconformados era o consultor de empresas
Anchieta Hélcias, pernambucano radicado
em Brasília e pessoa da estrita confiança
do vice-presidente Marco Maciel.
Segundo ele, amigos de Jarbas Vasconcelos e de
Roberto Magalhães se "auto-isentaram"
de participar da campanha no primeiro turno, por
discordarem daquela indicação, e
só se envolveram no segundo turno "em
legítima defesa do Recife". Mas aí
já era tarde. (Jornal do Commercio, 30
de outubro de 2000).
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