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O dia em que Jarbas pôs toda a
imprensa brasileira para acompanhar uma apuração
de votos em Pernambuco
Uma das mais polêmicas eleições
da recente história política de
Pernambuco aconteceu em 1978, quando o então
candidato do MDB, Jarbas Vasconcelos, disputou
uma cadeira no Senado Federal contra dois representantes
governistas: Nilo Coelho, da Arena-1, e Cid Sampaio,
da Arena-2.
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Os políticos banidos
pela ditadura militar ainda não haviam
retornado ao Estado e Jarbas, a maior liderança
oposicionista na época, tinha tudo
para ser vitorioso. |
Mas, durante a contagem dos votos, várias
denúncias de fraude tumultuaram o processo
de apuração que seria o mais demorado
do País: levou quase um mês e fez
com que dezenas de muros do Recife fossem pichados
com as frases "Olho neles" e "Olho
na Fraude", numa referência ao comportamento
da comissão apuradora.
Enquanto em todos os outros Estados brasileiros
já se conheciam os eleitos, em Pernambuco
a apuração se arrastava em meio
a muita confusão e praticamente todos os
jornais brasileiros passaram a noticiar, em suas
primeiras páginas, os episódios.
O Globo, do Rio de Janeiro, por exemplo, publicou
reportagem informando que a curiosidade dos pernambucanos
em torno da apuração era tanta que,
em 15 dias, as vendas de pilhas para rádio
aumentaram 1.000% no Recife.
O Coorjornal, de Porto Alegre, narrou em página
inteira alguns dos casos de fraude descobertos.
E, quando enfim, o TRE anunciou que o eleito foi
Nilo Coelho, a Folha de São Paulo publicou
uma reportagem com o seguinte título: "Jarbas,
o que perdeu mas ganhou".
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Entre as fraudes detectadas
em 1978, uma delas resultou na prisão
de um funcionário do INPS que participava
da apuração na 4a Junta Apuradora,
26a Seção da Capital, e foi
flagrado, no dia 19/11, marcando votos para
Nilo Coelho nas cédulas em branco. |
Sobre esse episódio, o então presidente
do TRE, Otílio Neiva Coelho, argumentou
não ser da responsabilidade do Tribunal,
uma vez que a apuração era feita
pelo público.
Outra prática denunciada foi a inversão
da ordem dos números nos mapas de totalização
de votos.
Aconteceria da seguinte forma: se Jarbas teve,
por exemplo, 851 votos em determinada seção,
essa votação era passada para o
mapa como sendo 158 votos. Cid Sampaio também
se disse vítima desse mecanismo, mas só
falaria publicamente anos mais tarde.
Sentindo-se prejudicado, Jarbas Vasconcelos convocou
a imprensa e denunciou o que estaria ocorrendo.
Em uma de suas intervenções, o candidato
do MDB declarou: "Cabe-me esclarecer, oportunamente,
uma série de fatos, todos comprovados e
alguns já do conhecimento público,
sobre irregularidades, algumas claramente tipificadas
como atos criminosos, praticados no desenrolar
da contagem dos votos, no propósito de
distorcer a vontade popular e oferecer um falso
resultado das eleições".
A partir de então, a imprensa nacional
passou a dar destaque a apuração
pernambucana e em qualquer boteco do Recife o
assunto preferido era a demora na divulgação
dos resultados. Em nota oficial publicada a 24/11,
o TRE justificava que tinha prazo de 30 dias para
anunciar o eleito.
E, assim, enquanto o resultado oficial da eleição
não era divulgado, a polêmica tomava
conta do Estado. Veja, a seguir, algumas declarações:
"O silêncio do TRE representa a existência
de fraude nestas eleições".
(De Luís de Melo Reis, advogado do candidato
Cid Sampaio, sobre a demora do tribunal em divulgar
o resultado da eleição)
"Ele não tem coragem de confirmar
essas mentirosas acusações na minha
frente". (Do presidente do TRE, Otílio
Neiva Coelho, em resposta ao advogado de Cid Sampaio)
"Jarbas é o novo senador da República.
Ele pode não ser pela resolução
do TRE, mas teve a maioria dos votos" (Do
vereador recifense Luiz Vidal, presidente do comitê
do candidato do MDB)
"A honorabilidade, credibilidade e respeitabilidade
do Tribunal regional Eleitoral está sendo
posta em xeque por uma minoria que, desinformada
e mal-intencionada, pretende ofuscar uma vitória
límpida obtida pelo ex-governador Nilo
Coelho". (Do deputado governista Antônio
Ayrton Benjamim)
"Jarbas, o que perdeu mas ganhou".
(Manchete de reportagem do jornal Folha de São
Paulo, sobre o resultado das eleições
em Pernambuco.
Cid Sampaio: Quem ganhou fui eu ou Jarbas
Embora tenha disputado aquela eleição
pelo partido do Governo (foi parceiro de Nilo
Coelho, através de uma sublegenda da Arena),
o ex-governador Cid Sampaio também se sentiu
prejudicado e nunca se conformou com a apuração.
Nos tumultuados dias da contagem dos votos, ele
evitou falar publicamente sobre fraudes (deixou
essa tarefa para os seus advogados).
Mas, dois anos depois, ao conceder uma longa
entrevista ao hoje extinto semanário recifense
Jornal da Cidade (publicada sob o título
"Cid: quem ganhou fui eu ou Jarbas"),
Cid Sampaio daria a sua versão para o que
aconteceu em 1978. Veja um trecho da entrevista:
Jornal da Cidade - Houve fraude em 78?
Cid Sampaio - Eu assisti, dentro
do Tribunal de Justiça (Sic), em Recife,
ser flagrado um homem marcando uma cédula
em branco com um xizinho no quadrinho correspondente
ao meu opositor.
Jornal da Cidade - Qual?
Cid Sampaio - O que estava na
mesma legenda que eu. Estavam presentes dois juizes.
Esse homem foi pego marcando a cédula.
O presidente do Tribunal mandou algemar este homem.
Este homem é solto 48 horas depois, por
falta de provas. Várias vezes recorri ao
presidente do Tribunal reclamando quanto a troca
de nomes na leitura que faziam da apuração
dos números.
Diziam ao contrário. E davam a votação
do outro candidato para mim e para o outro candidato
davam a minha votação. Por mais
de uma vez, o presidente do Tribunal atribuiu
o fato a "erro humano". Eu fiz ver a
ele que, desgraçadamente, esses "erros
humanos" só ocorriam contra mim.
No interior, eu recebi a visita, no dia da eleição,
de líderes políticos que chegaram
aqui na cidade dizendo que não tinham condições
de continuar acompanhando as eleições
nos seus municípios porque estavam sendo
distribuídas cédulas marcadas, que
eles não tinham possibilidades físicas
de enfrentar as forças governamentais locais.
Estando afastado da política, não
tendo diretório de interior, eu não
tive a possibilidade de indicar mesários.
Eu estava dentro dos grupos políticos
que se defrontaram em Pernambuco como alguém
desarmado, porque, enquanto os partidos estavam
a serviço dos outros dois candidatos, eu,
praticamente utilizando a legenda como dissidente,
não tinha partido porque não tinha
diretório, não fazia parte de diretório,
nunca tinha me integrado realmente dentro da antiga
Arena que critiquei desde a sua fundação.
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