Arraes
anunciou, em praça pública, que seria
derrotado por Jarbas Vasconcelos, em 1998. Veja
íntegra de 30 discursos daquela campanha
Passada a barulheira natural
dos períodos de eleição
e as posturas emocionais dos meses seguintes
à divulgação dos resultados,
só aí é possível
enxergar tudo o que aconteceu.
Em 1998, na eleição para governador,
por exemplo, Miguel Arraes anunciou publicamente,
durante a campanha, que iria perder para Jarbas
Vasconcelos. E perdeu.
Por que, então, ele entrou na disputa?
Uma leitura atenta dos 30 principais discursos
do ex-governador naquela campanha pode fornecer,
senão a resposta definitiva, pelo menos
boas pistas para responder a essa pergunta.
Há quem diga que Miguel Arraes nunca teve
a menor ilusão quanto ao resultado da eleição
e usou a campanha de 1998 para se fortalecer como
mito, para consolidar a imagem daquele político
que sofre mas não abre mão dos seus
princípios.
Outros afirmam que o ex-governador, apesar de
toda sua experiência de meio século
de campanhas eleitorais, cometeu um erro ao aceitar
a candidatura alimentando alguma esperança
de vitória. Só em seguida teria
percebido que a missão era impossível
e, assim, assumiu a postura de derrotado porque
era eterno perseguido.
Para os que defendem a tese de que Miguel Arraes
sempre esteve ciente da derrota inevitável,
um forte argumento é que, durante a campanha,
as expressões que ele mais usou foram "organizar
o povo" e "avançar na luta popular",
num discurso centrado em dois grandes eixos: no
passado do próprio candidato e na situação
da economia e do povo brasileiros, diante da globalização.
E isso o ex-governador falava até mesmo
no menor que fosse o povoado sertanejo. Portanto,
ele teria falado a verdade quando, divulgado o
resultado da eleição, afirmou: "Eu
já sabia que ia perder".
Se esta ou aquela análise é a correta,
bom, só a História dirá.
O certo (e que pouca gente percebeu ou não
quis comentar) é que Arraes fez toda a
campanha anunciando a própria derrota.
Primeiro, num encontro durante o qual o marqueteiro
Duda Mendonça tentou fazer Arraes desistir
da candidatura e o ex-governador respondeu: "Há
eleição em que a gente ganha eleitoralmente
e perde politicamente. E há eleição
em que a gente perde eleitoralmente e ganha politicamente".
Depois, Arraes falaria literalmente em derrota
durantes vários comícios que realizou
do Litoral ao Sertão do Estado.
Logo no comício de abertura da campanha,
no Cabo, por exemplo, o ex-governador afirmou:
"Nossos adversários pensavam que iam
ganhar o poder sem resistência". Depois,
na inauguração do comitê do
Recife, diria: "Esta é uma batalha
decisiva não para a eleição
de governador e de senador, mas para o destino
do Brasil".
Em Ouricuri: "Como governador, dê
no que der, não abrirei mão dos
meus princípios". Em Glória
de Goitá: "Sou candidato por uma razão
maior, política". Em Olinda: "Sei
que esta posição política
não é fácil de ser sustentada".
Em Lagoa Grande: "A verdade se restabelece
um dia".
Os discursos de Miguel Arraes foram gravados
pelo repórter Marcos Cirano, que em 1998
integrava a equipe de Duda Mendonça, responsável
pela campanha do ex-governador. O material (que
o pe-az veicula aqui pela primeira vez e com exclusividade)
tem importância histórica por, pelo
menos, duas razões: a) revela, em detalhes,
como Arraes conduziu a campanha; b) é a
outra metade documental da histórica vitória
de Jarbas Vasconcelos.
Outro fato a acrescentar é que detalhes
de campanhas passadas sempre ajudam compreender
o que está acontecendo no momento.
Para nós, do Pernambuco de A/Z,
a veiculação dos discursos é
a nossa contribuição para o registro
e reconstituição da história
política do Estado. Os discursos: