|
O Estado de Pernambuco tem 70% do seu território
localizado no semi-árido nordestino, área
também denominada de Polígono das
Secas. Como qualquer outra região semi-árida
do mundo, o Nordeste brasileiro sempre estará
sujeito a secas periódicas. Isto porque
uma das características naturais desse
tipo de região é ter chuvas irregulares
e mal distribuídas geograficamente. Mas,
as secas nordestinas só assumem proporções
de calamidade porque o Nordeste é subdesenvolvido,
não está preparado para conviver
com o seu clima natural: os reservatórios
(açudes etc.) para armazenar a água
da chuva são poucos; o governo quase nada
investe para a perenização dos rios
através da construção de
barragens; a agricultura irrigada é pouco
praticada; as lavouras mais cultivadas são
inadequadas ao clima da região; as condições
sócio-econômicas da maioria dos nordestinos
estão no nível da pobreza à
miséria.
Para se ter uma idéia de que a situação
poderia ser diferente apesar das estiagens, basta
citar que no semi-árido nordestino a média
anual de chuvas é superior à média
de chuvas de várias regiões da Europa,
como Paris por exemplo.
A primeira seca de que se tem notícia
no Nordeste aconteceu entre 1580 e 1583, sendo
que o estado mais atingido foi Pernambuco. Naquela
ocasião, os engenhos da Província
não moeram, as fazendas ficaram sem água
e cerca de cinco mil índios desceram o
Sertão em busca de comida.
Até hoje, a seca considerada mais arrasadora
foi a ocorrida em 1877, que durou três anos
e atingiu todos os estados do Nordeste. Durante
essa estiagem, calcula-se que morreram 500 mil
pessoas, o equivalente à metade da população
do semi-árido. Foi nessa época que
o problema das secas no Nordeste passou a ser
considerado de âmbito nacional.
Criou-se uma Comissão Imperial cujos
membros, depois de percorrerem a região
afetada, sugeriram as seguintes medidas para amenizar
a calamidade: construção de três
ferrovias e de trinta açudes, instalação
de observatórios meteorológicos
e abertura de um canal para levar água
do Rio São Francisco para o Rio Jaguaribe,
no Ceará. Mas, de todas essas medidas,
apenas um açude (o Quixadá, no Ceará)
foi construído. As obras desse açude
ficaram dois anos paralisadas e só foram
concluídas em 1906.
A mais prolongada e abrangente seca nordestina
até o momento foi a de 1979: durou cinco
anos e atingiu até mesmo regiões
nunca afetadas anteriormente, como a Pré-Amazônia
Maranhense e grande parte das zonas da Mata e
Litoral do Nordeste. Pela primeira vez, a estiagem
avançava além do Polígono
das Secas.
Foi atingida uma área total de 1,4 milhão
de km2, quase todo o Nordeste. Calcula-se que,
durante essa seca, morreram três milhões
de nordestinos, principalmente crianças
desnutridas. O governo federal criou um "programa
de emergência" que consistia na liberação
de recursos para pagar um salário aos agricultores
que passaram a trabalhar na construção
de obras na região.
Obras que, teoricamente, poderiam amenizar os
efeitos da próxima estiagem: pequenos açudes,
cacimbas, poços etc. O programa de emergência
chegou a ter 1,4 milhão de nordestinos
alistados e as obras ou foram abandonadas pela
metade ou se mostraram ineficientes, porque não
tiveram nenhum planejamento técnico; constituíam
apenas uma ocupação para os agricultores
flagelados pela seca.
Nessa mesma ocasião, o governo federal
também anunciou grandes obras para o Nordeste
(como, por exemplo, a transposição
das águas do Rio São Francisco),
mas, como sempre, as obras não saíram
do papel.
Veja, a seguir, a cronologia das secas em
Pernambuco e no Nordeste brasileiro:
1583/1585 - Primeira notícia
sobre seca, relatada pelo padre Fernão
Cardin, que atravessou o sertão da Bahia
para Pernambuco. Relata que houve "uma grande
seca e esterilidade na província e cinco
mil índios desceram o sertão apertados
pela fome socorrendo-se aos brancos". As
fazendas de canaviais e mandioca deixaram de produzir.
1606 - Nova seca atinge o Nordeste.
1615 - Seca de razoável
proporção.
1652 - Seca atinge o Nordeste.
1692/1693 - Uma grande seca
atinge o sertão sanfranciscano. A peste
assola na capitania de Pernambuco. Segundo o historiador
Frei Vicente do Salvador, os indígenas,
foragidos pelas serras, reúnem-se em numerosos
grupos e avançam sobre as fazendas das
ribeiras, destruindo tudo.
1709/1711 - Grande seca atinge
o Nordeste, estendendo-se até a Capitania
do Maranhão, espalhando fome entre seus
habitantes.
1720/1721 - Seca atinge as províncias
do Ceará e do Rio Grande do Norte. Pernambuco
não sofreu grandes efeitos.
1723/1727 - Grande seca, os
engenhos ficam em ruínas e, como relata
Irineu Pinto, "os fiscais da Câmara
pedem a El-Rey que os mande acudir com escravos
pois os daqui têm morrido de fome".
1736/1737 - Outra seca atinge
o Nordeste, causando prejuízos à
região.
1744/1745 - Seca provoca morte
do gado e fome entre a população
nordestina. Alguns historiadores afirmam que crianças
que já andavam, de tão desnutridas,
voltaram a engatinhar.
1748/1751 - Grande seca atinge
a região.
1776/1778 - Um das mais graves
secas até então. Não apenas
pela falta de chuva, mas por coincidir com um
surto de varíola iniciado no ano anterior
e que se prolongaria até 1778, provocando
grande mortandade. Quase todo o gado bovino ficou
perdido na caatinga. A Corte Portuguesa determina
que os flagelados fossem reunidos em povoações
de mais de 500 fogos, nas margens dos rios, repartindo-se
entre elas as terras adjacentes.
1782 - É realizado um
censo para determinar a população
das áreas sujeitas a estiagens e o resultado
aponta 137.688 habitantes.
1790/1793 - Uma seca transforma
homens, mulheres e meninos em pedintes. É
criada a Pia Sociedade Agrícola, primeira
organização de caráter administrativo,
cujo objetivo foi dar assistências aos flagelados.
1808/1809 - Seca parcial atingindo
Pernambuco, na região do São Francisco.
Notícias dão conta de aproximadamente
500 mortos, por falta de comida.
1824/1825 - Aliada à
varíola, grande seca faz muitas vítimas
na região. Os campos ficam esterilizados
e a fome chega até os engenhos de cana-de-açúcar.
1831 - A Regência Trina
autoriza a abertura de "fontes artesianas
profundas, como forma de resolver o problema da
falta d'água".
1833/1835 - Grande seca atinge
apenas Pernambuco.
1844/1846 - Seca de grandes
proporções provoca o marte do gado
e espalha fome entre os nordestinos. Um saco de
farinha de mandioca era trocado por ouro ou prata.
1877/1879 - Uma das mais graves
secas que atingiram todo o Nordeste. O Ceará,
por exemplo, tinha ,à época, uma
população de 800 mil habitantes.
Destes, 120 mil (ou 15%) emigraram para a Amazônia
e outras 68 mil pessoas foram para outros estados.
1888/1889 - Grande seca atinge
Pernambuco e Paraíba, deixando destruição
de lavouras e vilas abandonadas.
1898/1900 - Outra grande seca
atinge somente o estado de Pernambuco.
1903/1904 - Flagelados por nova
seca, milhares de nordestinos abandonam a região,
Passa a constar da Lei de Orçamento da
República uma parcela destinada às
obras contra as secas. Criam-se três comissões
para analisar o problema das secas nordestinas;
1908/1909 - Seca atinge principalmente
o sertão de Pernambuco. Em 1909 é
criada a Inspetoria de Obras Contra as Secas (IOCS).
1910 - São instaladas124
estações pluviométricas no
semi-árido nordestino. Até então,
tinham-se construídos 2.311 açudes
particulares na Paraíba e 1.086 no Rio
Grande do Norte.
1914/1915 - Seca de grande intensidade
em toda região semi-árida nordestina.
1919/1921 - Em conseqüências
dos efeitos dessa seca (que teve grandes proporções,
sobretudo no sertão pernambucano), cresce
o êxodo rural no Nordeste. A imprensa, a
opinião pública e o Congresso Nacional
exigem atuação do governo. É
criada, em 1920, a Caixa Especial de Obras de
Irrigação de Terras Cultiváveis
do Nordeste Brasileiro, mantida com 2% da receita
tributária anual da União, além
de outros recursos. Mas, praticamente nada é
feito para amenizar o drama das secas.
1932 - Grande seca no Nordeste.
1945 - Mais uma seca atinge
o Nordeste. É criado o Departamento Nacional
de Obras Contra as Secas (DNOCS) que passa a desempenhar
as tarefas antes atribuídas à Inspetorial
Federal de Obras Contra as Secas, criada em 1919.
1951/1953 - Grande seca atinge
todo o Nordeste.
1953 - Outra grande seca no
Nordeste. O DNOCS propõe um trabalho de
educação entre os agricultores,
com objetivo de criar núcleos de irrigação.
1956 - Criação
do Grupo de Trabalho para o Desenvolvimento do
Nordeste (GTDN), encarregado de elaborar uma política
de desenvolvimento para a região.
1959 - Criação
da Sudene.
1966 - Seca atinge parcialmente
o Nordeste.
1970 - Grande seca atinge todo
o Nordeste, deixando como única alternativa
para 1,8 milhão de nordestinos o engajamento
nas chamadas "frentes de emergência",
mantidas pelo governo federal.
1979/1984 - A mais prolongada
e abrangente seca da história do Nordeste.
Atingiu toda a região, deixando um rastro
de miséria e fome em todos os Estados.
No período não se colheu lavoura
nenhuma numa área de quase 1,5 milhão
de km2. Só no Ceará foi registrada
mais de uma centena de saques, quando legiões
de trabalhadores famintos invadiram cidades e
arrancaram alimentos à força em
feiras-livres ou armazéns.
Segundo dados da Sudene, entre 1979/1984 morreram
na região 3,5 milhões de pessoas,
a maioria crianças, por fome e enfermidades
derivadas da desnutrição. pesquisa
da Unesco apontou que 62% das crianças
nordestinas , de zero a cinco anos, na zona rural,
viviam em estado de desnutrição
aguda. As frentes de emergência empregaram
26,6 milhões de trabalhadores rurais e
os gastos do governo federal com a seca, entre
1979/1982, somaram 4 (quatro) trilhões
de cruzeiros, o equivalente à época
a 50% dos dispêndios totais do Ministério
do Interior.
1993 - Grande seca atinge todos
os Estados do Nordeste e mais parte da região
norte de Minas Gerais. Só no Nordeste,
de acordo com dados da então Sudene (hoje,
Adene), um total de 1.857.655 trabalhadores rurais
que perderam suas lavouras foram alistados nas
chamadas "frentes de emergência".
Pernambuco foi o Estado que teve o segundo maior
número de agricultores alistados nessas
frentes, com 334.765 pessoas, perdendo apenas
para a Bahia (369 mil trabalhadores alistados).
As perdas de safras foram totais, em todos os
Estados Nordestinos. Na época, a imprensa
recifense publicou reportagem segundo a qual dezenas
de obras de combate às secas, iniciadas
e abandonadas pelo governo federal antes da conclusão,
já haviam provocado, entre 1978/1993, prejuízos
de CR$ 6,7 trilhões. O escândalo
das obras inacabadas deu origem até mesmo
a uma Comissão Parlamentar de Inquérito,
no Congresso Nacional, para apurar responsabilidades.
1998 - No final do mês
de abril, vêm à tona, mais uma vez,
os efeitos de uma nova seca no Nordeste: população
faminta promovendo saques a depósitos de
alimentos e feiras livres, animais morrendo e
lavoura perdida. Exceto o Maranhão, todos
os outros Estados do Nordeste são atingidos,
num total de cerca de cinco milhões de
pessoas afetadas. Esta seca estava prevista há
mais de um ano, em decorrência do fenômeno
El Niño, mas, como das vezes anteriores,
nada foi feito para amenizar os efeitos da catástrofe.
Somente depois que a imprensa e a televisão
mostraram famílias inteiras passando fome
e rezando pedindo chuva é que o governo
federal anunciou um programa de emergência,
através do qual passou a distribuir cestas
básicas de alimentos (10 kg por família)
aos flagelados. Tudo aconteceu no momento em que
os representantes do governo se orgulhavam pelo
fato de o Brasil assumir posição
destacada na "moderna era da economia globalizada".
O programa de assistência às populações
atingidas causou bate-boca, porque 1998 era um
ano eleitoral, inclusive com eleições
para a presidência da República,
e a distribuição dos alimentos estaria
obedecendo critérios eleitoreiros.
Representantes da Igreja Católica chegaram,
inclusive, a denunciar que os governos (federal,
estaduais e municipais) não tinham nenhum
interesse em resolver o problema das secas no
Nordeste "porque, com a fome, a compra de
votos fica mais fácil".
Além dos problemas na zona rural e no
interior do estado, a falta de chuva fez com que
Pernambuco vivesse, entre 1998/1999, o pior racionamento
de água de toda a sua história,
do sertão ao litoral: a região metropolitana,
inclusive o Recife, passou a receber água
encanada apenas uma vez por semana; a maior cidade
do agreste, Caruaru, só tinha água
nas torneiras uma vez por mês e dezenas
de municípios sertanejos ficaram meses
totalmente dependentes de carros-pipa.
2001 - Praticamente um prolongamento
da seca iniciada em 1998 (que se estendeu por
1999 e apenas deu uma trégua em 2000),
a seca de 2001 teve uma particularidade a mais,
em relação às anteriores:
ocorreu no momento em que não só
o Nordeste, mas todo o Brasil vivia uma crise
de energia elétrica sem precedentes em
todo a história do País, provocada
por falta de investimentos no setor e pela escassez
de chuvas. Daí, o nordestino desabafar:
"Agora é sem água e sem luz!"
Em Pernambuco, no início do inverno ocorreram
algumas chuvas e, animados, os agricultores se
puseram a plantar. Mas, logo as chuvas escassearam
e, em abril, já se registrava uma "seca
verde" em todo o sertão do Estado.
A situação foi-se agravando e, em
junho, as populações do interior
pernambucano já viviam o velho e conhecido
drama de dependerem da ajuda do governo.
|