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Carta inédita de Dom Hélder
sobre o Pe Henrique
Carta inédita de Dom Helder Câmara
narra os tensos momentos entre a informação
do assassinato e o velório do Padre Henrique
Pereira, trucidado em 1969 por integrantes da
ditadura militar brasileira. Na época,
a Igreja Católica em Pernambuco vivia sob
censura e o arcebispo costumava escrever cartas
para registrar os fatos que a imprensa não
divulgava. No caso do Padre Henrique, a família
não pôde, sequer, publicar nos jornais
o tradicional anúncio fúnebre. A
carta do Dom:
À querida Família Mecejanense
Recife 27/28 de maio de 1969
525ª. Circular
De repente, às 13:30h me chega o boato
de que Pe. Antônio Henrique havia sido assassinado.
Procura daqui, procura dali, ele foi identificado
no necrotério de Santo Amaro , onde dera
entrada como cadáver desconhecido.
Estaria com sinais de sevícias incríveis:
3 balas na cabeça,uma instalada na garganta,
sinais evidentes de que foi amarrado pelos braços
e pelo pescoço, e arrastado...28 anos de
idade, 3 anos de sacerdote. Crime: trabalhar com
estudantes e ser da linha do Arcebispo.
Coube-me procurar os velhos pais e dar-lhes a
notícia terrível.
No necrotério – onde ficamos até
as 19hs, quando o cadáver foi liberado
pelos médicos legistas – vivi uma
Avant-Premiére de minha própria
morte. Burburinho na sala. Gente chegando de todos
os cantos. A Imprensa escrita, falada, teve ordem
de ignorar o acontecimento, mas demos avisos a
todas as paróquias, por telefones e recados
pessoais
Levei-o para a Matriz do Espinheiro. Escolhida
sob meu divã, inclusive para causar impacto
no meio independente.
Na primeira concelebração, às
21hs, tínhamos mais de 40 sacerdotes e
a igreja, enorme, estava transbordante de jovens.
Dei uma tríplice palavra:
· Palavra de fé, aos velhos Pais,
esmagados de dor;
· Palavra de esperança, aos jovens
com quem ele trabalhava, assumi o compromisso
de que eles não ficariam órfãos;
· Aos fieis que enchiam o templo –
mais uma vez que a imprensa escrita e falada tinha
ordem para recusar até o aviso pago de
falecimento – pedi que ajudassem a espalhar
que às 9hs, haverá nova concelebração,
saindo o enterro, às 10hs, para o cemitério
da Várzea, que é o cemitério
da família.
Li então, a nota, assinada pelo Governo
Colegiado, nota que a imprensa não divulgará,
mas que nós tentaremos espalhar por toda
a cidade, pelo País e... pelo Mundo.
1 . Cumprimos o pezaroso dever de comunicar o
bárbaro trucidamento do Pe. Antônio
Henrique Pereira Neto, cometido na noite de ontem,
26 do corrente, nesta cidade do Recife.
2. Com 28 anos de idade e 3 anos de sacerdote,
o Pe. Henrique dedicou a vida ao Apostolado da
Juventude, trabalhando, sobretudo, com os universitários.
Às 22:30h de ontem, segundo o testemunho
de um grupo de casais, esteve reunido, em Parnamirim,
com pais e filhos na tentativa, que lhe era tão
cara, de aproximar as gerações.
3. O que há de particularmente grave no
presente crime, além dos requintes de perversidade
de que se revestiu (a vítima, entre outras
sevícias, foi amarrada, enforcada, arrastada
e recebeu 3 tiros na cabeça) é a
certeza prática de que o atentado brutal
se prende a uma série pré-estabelecida
e objeto de ameaças e avisos.
4. Houve, primeiro, ameaças escritas em
edifícios, acompanhadas, por vezes, de
disparos de armas de fogo. O Palácio de
Manguinhos recebeu numerosas inscrições.
O Giriquiti foi alvejado. A residência do
Arcebispo, a Igreja das Fronteiras, alvejada e
pichada.
5. Vieram, depois, ameaças telefônicas,
com o anúncio de que já estavam
escolhidas as próximas vítimas.
A primeira foi o estudante Cândido Pinto
de Melo, quartanista de Engenharia, presidente
da União de Estudantes de Pernambuco. Acha-se
inutilizado, com a medula seccionada.
A segunda foi um jovem sacerdote, cujo crime exclusivo
consistia em exercer apostolado entre os estudantes.
6. como cristãos e, a exemplo de Cristo
e do proto-mártir, S. Estevan, pedimos
a Deus perdão para os assassinos, repetindo
a palavra do Mestre: “Eles não sabem
o que fazem”.
Mas julgamo-nos no direito e no dever de erguer
um clamor para que, ao menos, não prossiga
o trabalho sinistro deste novo Esquadrão
da Morte.
7. Que o Holocausto do Pe. Antônio Henrique
obtenha de Deus a graça da continuação
do trabalho pelo qual doou a vida e a conversão
de seus algozes.
Recife, 27 de maio de 1969
+ Helder, Arcebispo de Olinda e Recife
+ Lamartine, Bispo auxiliar e Vigário Geral
Mons. Arnaldo Cabral , vigário episcopal
Mons. Ernani Pinheiro, Vigário Episcopal
A enorme assembléia cantou e rezou durante
todo o santo sacrifício. Quando irrompeu
o “Prova de Amor maior não há,
do que doar a vida pelo irmão”, ouviam-se
soluços...
E aqui estamos em vigília e de plantão.
Há o temor de que pretendam obrigar-nos
a um sepultamento precipitado e sem assistência.
Em caso contrário, será uma apoteose:
Após a segunda concelebração,
o enterro seguirá a pé , até
o inicio da Avenida Caxangá.
O que a muitos parecia fantasia, de repente tornou-se
claro para a cidade inteira. Querem que eu me
proteja; que não ande só, à
noite; que não durma só.
Quem disse que eu ando só? Quem disse que
eu durmo só? Andam e dormem comigo, o Pai,
o Filho e o Espírito Santo. Velam por mim
a Mãe querida e José o amigo fiel...
nada acontece ou acontecerá por acaso.
É graça, é privilégio
viver a 8ª bem-aventurança!
Bênçãos Saudosas do Dom

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