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Poeta e engenheiro, Joaquim Cardozo é
o novo personagem da série Os autores
pernambucanos que caem no vestibular. Aqui,
você tem um pouco da vida e da obra
desse solitário escritor recifense
que dedicou toda a existência a duas
paixões: o cálculo matemático
e, principalmente, a poesia. |
Ele foi parceiro de Oscar Niemeyer em obras que
revolucionaram a arquitetura brasileira, como
o Palácio do Planalto, o Congresso Nacional
e o Palácio dos Arcos (Itamaraty). Publicou
seu primeiro livro aos 50 anos de idade e morreu
sem ter o reconhecimento do grande público.
Mas os críticos sempre o classificaram
como um dos maiores poetas da língua portuguesa
no século XX.
Interpretação da obra do
poeta
"Numa primeira fase, Joaquim Cardozo parece
aderir ao Modernismo nacionalista, cantando nos
Poemas aspectos típicos da capital pernambucana.
Numa segunda fase (Signo Estrelado), é
Carlos Drummond de Andrade (Passeios na Ilha)
a aproximá-lo do lirismo valéryano,
racionalista, abstrato e de sábia arquitetura
verbal e métrica.
Já em O Coronel de Macambira temos o poeta
a explorar o rico e singelo filão folclórico
do Nordeste, para satirizar a exploração
do homem do campo pelos "coronéis"
e proprietários rurais. Em qualquer das
fases está a afirmação de
um artista do verso, que impressiona sobretudo
pelas metáforas, surpreendentes associações
verbais (chão de cinza e fadigas; saudade
pura/de abril, de sonho, de azul; aurora verde;
rastro de luz macia), economia da expressão,
sintaxe e ritmo cheios de sutileza e sugestividade.
Dicção despojada, sentido estrutural
da construção poemática -
matemática e vôo lírico, eis
em poucas palavras a sua marca de escritor."
(Celso Pedro Luft, in Dicionário de Literatura
Portuguesa e Brasileira, Editora Globo, Porto
Alegre, 1979)
Depoimentos
João Cabral de Melo Neto: "Joaquim
Cardozo foi um dos maiores poetas que conheci.
Sua obra é extraordinária, embora
não tenha sido suficientemente estudada.
Cardozo encontrou o verdadeiro estilo moderno
no Brasil sem ser modernista."
Walmir Ayala: "Como poeta, Joaquim
Cardozo é um sertanejo. Um mágico
operístico quando desenrola as aventuras
do Coronel de Macambira. Um lírico sempre,
de ingênuas mãos expostas: A várzea
tem cajazeiras.../Cada cajazeira um ninho/Que
entre o verde e o azul oscila/Mocambo de passarinho..."
Carlos Drummond de Andrade: 'Se me perguntassem:
o que distingue o grande poeta? Eu responderia:
Ser capaz de fazer um poema inesquecível.
O poema que adere à nossa vida de sentimento
e de reflexão, tornando-se coisa nossa
pelo uso. Para mim, Joaquim Cardozo, entre os
muitos títulos de criador, se destaca por
haver escrito o longo e sustentado poema A Nuvem
Carolina que é uma das minhas companheiras
silenciosas da vida."
Jorge Amado: "...Esse homem universal
em sua cultura e em sua concepção
de vida, interessado em todos os fenômenos
da vida, apaixonando-se pelos mais diversos aspectos
da existência e da cultura, espírito
aberto a todas as experiências (...) Tão
universal e tão nordestino ao mesmo tempo.
Ou talvez porque tão nordestino, tão
de seu campo de cana plantada, tão de seu
sertão de seca e fome, de seu rio Capibaribe,
de seu Recife de pontes e mocambos, talvez porque
tão brasileiro, seja ele de humanismo tão
universal (...)"
César Leal: "Muita gente
fica admirada quando eu digo que Joaquim Cardozo
é o maior poeta brasileiro do século
XX. Não creio que seja apenas o mais completo
poeta da língua, pois, ao publicar o livro
Trivium, em 1970, ele atinge a transcendência,
deixando de ser um representante da poesia da
língua portuguesa, para situar-se num plano
universal: o plano da língua poética
pura, uma língua geradora de símbolos
e imagens e que não tem um interesse meramente
comunicativo."
Perfil/Bibliografia
Poeta, engenheiro, Joaquim Maria Moreira Cardozo
nasceu no Recife, a 26 de janeiro de 1897, filho
de um modesto guarda-livros. Na juventude participou
das noitadas boemias recifenses, com figuras como
o poeta Ascenso Ferreira e outros. Em 1934, foi
um dos primeiros engenheiros calculistas da estrada
Rio-Petrópolis.
Em 1939, após um giro pela Europa, volta
para o Recife; entra em atrito com o então
interventor federal em Pernambuco, Agamenon Magalhães,
e muda-se para o Rio de Janeiro, onde passa integrar
o grupo formado pelos intelectuais Manuel Bandeiras,
Pedro Nava, Augusto Meyer, Lúcio Costa
e outros.
Durante muitos anos, viveu entre as duas cidades:
Rio e Recife. Entrou na literatura por influência
de um irmão, que era poeta parnasiano.
Publicou, em 1914, charges no Diário de
Pernambuco. Seu primeiro poema modernista foi
publicado pela imprensa em 1934.
O primeiro livro ("Poemas") foi editado
em 1947, quando o poeta completava 50 anos de
idade. Depois, vieram os outros livros: "Pequena
Antologia Pernambucana" (1948); "Prelúdio
e Elegia de Uma Despedida" (1952); "Signo
Estrelado" (1960); "O Coronel Macambira"
(1963) ; "Trivium" (1964); "Coletânea
de Teatro Moderno" (O Capataz de Salema,
Antônio Conselheiro e Marechal Boi de Carros,
1965); "De uma Noite de Festa" (1971);
"Poesias Completas" (1971); "Os
Anjos e os Demônios de Deus" (1973);
"O Interior da Matéria" (1976).
Como engenheiro, integrou a equipe de Oscar Niemeyer
na construção de Brasília,
tendo feito os cálculos das estruturas
dos palácios do Planalto e Alvorada e do
prédio co Congresso Nacional. Morreu no
Recife, a 04 de novembro de 1978. Publicações
póstumas: "Um Livro Aceso e Nove Canções
Sombrias", Editora Civilização
Brasileira/Fundarpe, 1981; "Poemas Selecionados"
(1997, organizado por César Leal).
Alguns poemas
Soneto somente
Nasci na várzea do Capibaribe
De terra escura, de macio turvo,
De luz dourada no horizonte curvo
E onde, a água doce, o massapé proíbe
Sua presença para mim se exibe
No seu ar sereno que inda hoje absorvo,
E nas noites com negridão de corvo,
Antes que ao porto do céu arribe
A lua assim só tenho essa planície...
Pois tudo quanto fiz foi superfície
De inúteis coisas vãs, humanamente.
De glórias e de alturas e de universos
Não tenho o que dizer nestes meus versos:
- Nessa várzea nasci, nasci somente.
Nesse mar
Por degrau de arenito e de coral
Do Recife se desce para o mar,
Para a noite do mar.
Onde ficam as minas agata?
As jazidas maiores de calcedônia?
Onde se estão diluindo nessas águas,
Nesse mar. Nesse mar,
Um céu com arco-íris e ocasos, um
céu?
Caiu nesse mar.
Luzia, acende a lâmpada da sala
Luzia, acende a lâmpada da sala
E espreita as sombras inimigas no
corredor deserto
Onde as aranhas sábias construíram
estruturas levíssimas.
Vem depois assistir às horas do meu sono,
Debruça-te sobre o meu corpo
E olha para o meu rosto:
Verás, então, de mim, o que é
Recôndito;
Verás, em mim o que é de Tudo;
Verás também passar a tua imagem,
Banhada e refletida,
Nas águas e na luz da minha vida.
Trecho do poema Trivium
Um piano emudece, as moças param de dançar
Dois namorados se beijam e se despedem
junto à cerca do jardim
O trem noturno passa
Último trem subindo ao céu
As luzes do casario aos poucos se apagaram
Somente no alto de um sótão brilha
uma lâmpada
E, através da janela, se vê um homem
estudante
- Cabelos despenteados, caídos sobre a
testa
Está lendo: estuda um teorema de geometria
O trem noturno passa
Opinião de Joaquim Cardozo
(Do livro "Caderno de Confissões
Brasileiras", Geneton Moraes Neto, Recife-1983)
Sobre se a poesia deve ser mais de palavras ou
de idéias: "A poesia deve ser de palavras
e de idéias, pois as idéias se exprimem
por palavras e estas, segundo Maurice Blondot,
possuem quatro significantes, entre os quais o
halo; daí se conclui que as palavras usadas
na poesia não pertencem, em geral, a uma
linguagem e, sim, a uma metalinguagem; nunca a
forma rígida, gramatical, de uma linguagem
e muito menos de uma Linguagem Formalizada de
Godel".
Sobre se a poesia pode sobreviver sem o discurso
poético: "Pode, evidentemente, apesar
de sua sobrevivência ser mais real na poesia
dramática - que está muito ligada
à recitação; a sobrevivência
da poesia de Racine, Shakespeare e etc. deve-se
em grande parte a este fenômeno. Para se
mostrar a importância da recitação
na sobrevivência da poesia, basta lembrar
que todos os livros chineses foram queimados por
um imperador da dinastia Tsin, duzentos anos antes
de Cristo; no entanto, a maior parte da literatura
chinesa dessa época sobreviveu na memória
e na voz cantada do povo".
Sobre a utilização de diferentes
formas poéticas simultaneamente, por um
só autor: "Acho que as formas poéticas
podem coexistir; não há na poesia
substituição de uma forma em outra
forma. Isto fica bem explicado com o caso de Dionísio
Ridroefo e de vários poetas brasileiros,
como Waldemar Lopes, Odilo Costa Filho, onde a
forma permanece -em geral, a do soneto- variando,
entretanto, o conteúdo -que é de
vanguarda".
Qual foi o poema, entre os que escreveu, que
apresentou um maior grau de realização:
"Das minhas obras poéticas, a que
concentrou maior grau de realização
foi "Trivium" - Três Caminhos.
A primeira parte deste poema -"Prelúdio
e Elegia de uma Despedida"- figurou na coleção
"Hipocampo", dirigida por Thiago de
Melo e Geir Campos -edição em pequena
tiragem de cem exemplares.
A parte que mais me empregou na sua execução
foi, porém, "Visão do Último
Trem Subindo ao Céu" - que é
o caminho para um céu sonhado. Levei mais
de três anos para termina-la; procurei usar
recursos poéticos associados a um conhecimento
universal - que vai desde o espaço de Minkoreski
até o de Finsler; da teoria da relatividade
restrita até a possibilidade de usar o
espaço de Finsler na investigação
das equações do campo unitário.
Pensei que somente viajando nesses espaços
se poderia chegar ao céu do Acontecimento
Branco, isto é, de qualquer acontecimento.
Nesta parte do "Trivium", procurei me
aproximar das idéias mais modernas do grupo
de Althusser; sobretudo dos romances modernos
de Badeou".
Sobre a experiência como engenheiro calculista
e o ofício de poeta: "Como engenheiro
calculista descobri a poesia da arquitetura moderna
de Le Corbusier, Oscar Niemeyer, Lúcio
Costa e outros; grande parte dessa experiência
está contida no poema "Arquitetura
Nascente e Permanente". Nesta poesia arquitetônica,
estará talvez o gérmen da poesia
absoluta de Blummer".
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