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O GRANDE SILÊNCIO

No início de 1970, o governo brasileiro estabeleceu, através de decreto-lei, a censura prévia a livros e periódicos, mas, ainda assim, Dom Hélder continuou tendo acesso aos jornais e outros veículos de comunicação. É verdade que esse acesso era limitado. Ou seja, em muitas ocasiões trechos de pregações ou entrevistas do arcebispo eram vetados. Aquilo que não fosse do agrado dos militares jamais era veiculado, mas a situação ainda não tinha se fechado de todo.

Na prática, a censura prévia à imprensa acontecia de duas maneiras. A primeira era a seguinte: dois ou mais representantes do governo (os famosos censores) ficavam de plantão nas redações, liam (no caso dos jornais) ou assistiam (no caso de rádios e tvs) a todo o material produzido e só então determinavam o que poderia ser veiculado. A outra forma de censura era o envio de mensagens (geralmente por telex) às redações estabelecendo que tal ou qual notícia estava proibida.

Para censurar Dom Hélder, várias dessas mensagens foram enviadas aos jornais, rádios e tvs. Uma delas dizia: “Está proibida a publicação da entrevista de D. Hélder Câmara à revista Politika”. Outra determinava: “Está proibida a publicação e divulgação de matéria, notícia ou comentário sobre declarações de D. Hélder Câmara ao jornal Le Monde (de Paris) relativas à prisão João Francisco, ocorrida em Pernambuco”.

Além de não poder expor idéias ou denunciar prisões irregulares ou a prática de tortura, Dom Hélder era impedido até mesmo de responder acusações contra ele veiculadas pela imprensa, como atesta esta mensagem: “Por determinação superior, fica proibida divulgação pelos jornais, rádios e televisões, de entrevista de D. Hélder em resposta a acusações do governador Abreu Sodré.” O governador paulista, através da imprensa, havia declarado que o arcebispo fazia “propaganda comunista”.

Também a própria ação dos órgãos governamentais de polícia, desde que referente ao arcebispo, era censurada, como demonstra a seguinte determinação: “Por ordem superior, fica terminantemente proibida a divulgação por qualquer meio de comunicação, jornais, rádio e televisão, da seguinte notícia: Polícia Federal invadiu a Cúria Metropolitana, prendendo padres e apreendendo vasta documentação. D. Hélder protesta veementemente e etc.”.

O pior, porém, aconteceria a 09 de novembro de 1970, quando o governo determinou que todos os veículos de comunicação (jornais, rádios ou tvs) ficavam proibidos, a partir daquela data, de sequer mencionar o nome de Dom Hélder. “De ordem do Sr. Ministro da Justiça, ficam proibidas quaisquer manifestações, imprensa falada, escrita e televisada, contra ou a favor de Dom Hélder Câmara. Tal proibição é extensiva nos (sic) horários de televisão reservados à propaganda política.”

Sem que a imprensa brasileira pudesse veicular o seu nome até mesmo para acusá-lo, restou a Dom Hélder continuar proferindo suas palestras no exterior (pois aqui no país poucos se arriscavam convidá-lo) e divulgar suas idéias ou denúncias através do Boletim Arquidiocesano, um pequeno jornal mimeografado. Esse silêncio durou sete anos, sendo rompido a 24/07/1977 quando o Jornal do Brasil, do Rio de Janeiro, publicou uma longa entrevista com o arcebispo.

Nessa entrevista, concedida à repórter Divane Carvalho, da sucursal do jornal no Recife, e publicada sob o título Quanto mais negra é a noite mais carrega em si a madrugada, Dom Hélder falou de sua militância política, dos atritos entre Igreja e Estado no Brasil, de suas relações com a imprensa, do papel da Igreja, das acusações de suas possíveis ligações com os comunistas, dos problemas sociais brasileiros entre outros assuntos. Foram duas páginas inteiras de desabafo.

A partir daquela data, aos poucos Dom Hélder retornou às páginas dos outros jornais. Em nenhum momento, porém, houve qualquer determinação governamental para o fim da censura ao arcebispo.