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A RESISTÊNCIA DEMOCRÁTICA

1964

001 – “POVO ACLAMOU O SEU ACERBISPO: LUCENA ENTREGA AS CHAVES DA CIDADE”. Última Hora, Recife, 12 de abril de 1964.

Notícia sobre o desembarque, dia 11 de abril de 1964, no Recife, do novo arcebispo de Olinda e Recife, Dom Hélder Câmara que, segundo o jornal, foi recebido e elogiado pelo governador de Pernambuco, Paulo Guerra; pelo prefeito do Recife, Augusto Lucena; pelo comandante do IV Exército, general Justino Alves Bastos; pelo brigadeiro Homero Souto; e pelo almirante Dias Fernandes, entre outros.

O jornal publica, também, íntegra da mensagem de Dom Hélder, proferida no mesmo dia 11 de abril de 1964, em frente à Igreja Matriz de Santo Antônio, no Recife, através da qual o arcebispo faz as seguintes observações:

Defende o diálogo; condena “o círculo vicioso do subdesenvolvimento e da miséria”; diz ter “o coração aberto para os homens de todos os credos e de todas as ideologias”; afirma que “ninguém se espante me vendo com criaturas tidas como envolventes, da esquerda ou da direita, da situação ou da oposição, anti-reformistas ou reformistas, anti-revolucionárias ou revolucionárias, tidas como de boa ou de má fé”; alerta para “ninguém pretender prender-me a um grupo, ligar-me a um partido”; diz que “desenvolvimento supõe despertar de consciência”; pede “serenidade de espírito e coragem cristã para salvar idéias justas, encarnadas em expressões que, no momento, soam quase como palavras proibidas e feias como, por exemplo, cultura popular, conscientização, politização”.

Em sua mensagem, Dom Hélder diz, ainda, que “a liberdade é um dom divino a salvar a qualquer preço”; afirma que “a Igreja não quer dominar a marcha dos acontecimentos, mas servir aos homens, ajudando-os em sua libertação”; diz não se contentar em pedir “a patrões e trabalhadores, a ricos e pobres, à esquerda ou à direita, a crentes e não crentes que concordem numa simples trégua”, pois “é necessário que se abra, confiante e largo, um diálogo crescente”; afirma que “enquanto nos muros de nossas cidades se lêem frases contra imperialismos estrangeiros, em cidades como a capital do Paraguai e da Bolívia se lêem slogans contra o imperialismo brasileiro”; e pede: “Que do Nordeste parta para todo o Brasil o exemplo de rápida recuperação da crise política de que estamos saindo. Sem prejuízo das medidas de segurança nacional e da posição de alerta em relação ao comunismo, não acusemos de comunistas os que simplesmente têm fome e sede de justiça social e de desenvolvimento do País.”

Obs: A crise política a que Dom Hélder se refere é o golpe militar de 31 de março de 1964, que derrubou João Goulart da presidência do Brasil.

002 – “DEZOITO BISPOS LANÇARAM DECLARAÇÃO AO PAÍS”. Jornal do Commercio, Recife, 14 de abril de 1964.

O jornal publica íntegra de declaração, assinada no Recife dia 13 de abril de 1964, por Dom Hélder e mais dezessete bispos do Nordeste brasileiro, redigida ao final de uma reunião entre sacerdotes que durou cerca de cinco horas. Na declaração, os bispos dizem prosseguir “corajosamente nos programas de renovação do ministério sacerdotal”; manifestam “o firme apoio aos movimentos apostólicos”, como setores da Ação Católica Brasileira e o Movimento de Educação de Base; dizem que “a Igreja de Deus, no exercício de sua missão, não está vinculada a regimes ou governos”, mas “colabora para o bem comum”.

Na declaração, os bispos dizem, ainda, confiar no futuro do Brasil; pedem a todos os fiéis “um redobrado esforço em favor de nossa Pátria”; pedem, “sem prejuízos das indispensáveis e oportunas medidas de segurança nacional” (...), “que inocentes, eventualmente detidos em um primeiro momento de inevitável confusão, sejam, quanto antes, restituídos à liberdade, e que mesmo os culpados sejam livres de vexames e tratados com o respeito que merece toda criatura humana”.

Os bispos declaram: “As necessárias reformas, tantas vezes lembradas pela Igreja, devem ser promovidas. Se, em voz quase unânime se afirmava ser o desejo de todos uma modificação em nossas estruturas sócio-econômicas, hoje, desaparecidos os perigos de um imediato aproveitamento por parte do comunismo (*), resta levá-las à prática de maneira prudente, corajosa e eficaz de acordo com a mensagem da Comissão Central da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil de 30 de abril de 1963”.

(*) Embora não citem diretamente, os bispos acham que esse “perigo de aproveitamento por parte do comunismo” foi afastado pelo movimento militar de 31 de março de 1964, que derrubou João Goulart da presidência do Brasil.

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