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“Rio de Janeiro – Após
35 dias de peripécias e tormentas numa
longa travessia, chegaram hoje, a esta Capital,
os heróicos pescadores do Recife, recebidos
festivamente na Praça Quinze. Vieram defender
reivindicações da classe e contam
com a simpatia da Primeira Dama do País – Sra.
Sara Kubitschek. São da Colônia
Z-1, de Pernambuco. Voltarão de avião,
pois a experiência foi amarga.” ...
A notícia acima foi publicada por um
jornal carioca, dia 30 de janeiro de 1956, e
retrata um dos episódios mais gloriosos
da trajetória de Brasília Teimosa,
a mais antiga invasão urbana recifense
cuja história, contada pelos seus próprios
habitantes, rendeu um pequeno livro editado em
1986. Os heróis, no caso, eram cinco dos
12 mil pescadores que viviam numa colônia
onde, no futuro, viria se instalar o bairro.
Eles viajaram do Recife ao Rio de Janeiro numa
pequena jangada para assistir a posse do presidente
Juscelino Kubitschek e pedir-lhe ajuda, pois
a comunidade vivia sob constante ameaça
de expulsão da área que ocupava.
Dos cinco aventureiros da “penosa travessia”,
apenas o pescador José de Souza Salviano
ainda estava vivo à época em que
o livro foi publicado. De posse de velhos recortes
de jornal, ele ajudou na reconstituição
da história do bairro e lembrou, orgulhoso,
detalhes da ousada viagem: contou que os aventureiros
assistiram a pose, posaram para fotos ao lado
de Juscelino e retornaram ao Recife “com
muita ajuda” , sendo a principal delas
um lote de 11 motores de 23 cavalos, doados pelo
presidente da República para as embarcações
dos pescadores. Seu José de Souza também
confirmou a versão mais aceita para a
origem de Brasília Teimosa:
Aos integrantes dessa Colônia Z-1, com
o passar do tempo foram-se juntando outros moradores
(a maioria biscateiros que não tinham
onde morar) que acabariam por organizar a comunidade,
onde atualmente vivem cerca de 50 mil pessoas.
A história de Brasília Teimosa
(seu nome é uma homenagem à cidade
de Brasília e a insistência dos
moradores em não deixar a área) é marcada
por conflitos. Tudo começou em 1930, quando
o então governador de Pernambuco, Carlos
de Lima Cavalcanti, mandou dragar uma área
entre o mar e o Rio Capibaribe, para a construção
de um aeroclube. Uma comunidade de pescadores
que ali vivia não concordou em deixar
a área e se iniciaram os conflitos. A
comunidade resistiu até mesmo a dois incêndios
misteriosos que destruíram todos os barracos;
a várias investidas em que o governo empregava,
clandestinamente, a Polícia Militar; e
a outros tipos de pressão.
-Então, essa viagem do Recife até o
Rio de Janeiro, cortando 1.124 milhas de mar,
foi uma idéia para chamar a atenção
para a comunidade, porque a gente era pescador,
gente não letrada, mas sabia que a publicidade
da nossa situação podia nos ajudar – contou
o pescador Salviano que, na época do lançamento
do livro, era o mais antigo morador de Brasília
Teimosa e vivia de uma aposentadoria de um salário-mínimo.
Segundo ele, a viagem, numa jangada de sete metros
de comprimento por 1,90 de largura, não
teve maiores transtornos porque todos os aventureiros
eram pescadores, já acostumados com o
mar. “Mais sacrificoso, mesmo, foi a construção
do nosso bairro”, comentou.
Sob o título “Brasília Teimosa”,
o livro é composto por textos que registram
a história oral da comunidade (resultado
de entrevistas com os moradores) ilustrados por
desenhos de crianças também moradoras
do bairro. O trabalho teve financiamento do Ministério
da Educação e Cultura e foi organizado
por uma equipe que incluía desde historiadora,
pedagoga, professoras primárias das escolas
locais até donas-de-casa, pescadores e
crianças. Com 90 páginas, o livro
teve uma tiragem de um mil exemplares, distribuídos
entre os alunos das escolas da própria
Brasília Teimosa. De linguagem simples
e direta, a preocupação central
do livro é deixar um registro da história
da comunidade que surgiu de uma invasão
de terras.
De acordo com o livro, os conflitos pela área
onde atualmente está localizada a comunidade
de Brasília teimosa e onde ainda hoje
permanece a colônia dos “pescadores
amigos do presidente Juscelino” têm
muita a ver com a localização da
favela. É que a comunidade é vizinha
a Boa Viagem, um bairro de gente rica que não
desejava a vizinhança. Mas, os textos
do livro não são raivosos ou sectários.
No capítulo que narra um dos incêndios
ocorridos na comunidade, por exemplo, há duas
versões para a tragédia. A primeira
diz que “os pescadores acham que tinha
muita gente rica interessada no terreno da colônia
e botaram fogo em tudo”. A outra versão
conta que “foi por causa de uma mulher
que deixou o filho sozinho no barraco e ele derrubou
um candeeiro, fazendo tudo pegar fogo”.
Segundo o Censo do IBGE, em 2000 o bairro de
Brasília Teimosa tinha os seguintes dados:
População: 19.155 habitantes
Área: 65,4 hectares
Densidade: 292,78 hab./ha

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