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Personagens indispensáveis
no carnaval de Pernambuco, os papangus são
hoje alegres foliões mascarados que
circulam pelas ruas das cidades, dando um
colorido especial à festa. Mas, nem
sempre foi assim. Originalmente, os papangus
eram figuras grosseiras e temidas que acompanhavam
as procissões religiosas, tocando trombeta
e dando chicotadas em quem atrapalhasse o
cortejo. |
| Foto:
Aline Feitosa |
Veja, aqui, o que alguns estudiosos da cultura
popular dizem sobre esses famosos tipos:
Em artigo sobre as procissões religiosas
em Pernambuco, publicado pela Revista de História
Municipal, em junho de 1978, Renan Pimenta Filho
assim descreve os papangus: “Indivíduo
que ia à frente da Procissão de
Cinzas (realizada na quarta-feira de cinzas no
Recife e em Olinda) encarregado de tocar corneta
anunciando o cortejo. Ele vestia uma túnica
de tecido escuro, tinha a cabeça e o rosto
cobertos por um capuz branco com três buracos
– um na boca e dois nos olhos. Levava um
chicote com o qual batia nos moleques que tentavam
perturbar o desfile religioso. Atrás do
papangu, vinham as várias alas da procissão”.
No Dicionário do Folclore Brasileiro,
Luís da Câmara Cascudo informa que
“o termo papangu vem de uma espécie
grosseira, assim apelidada, e que, à espécie
de farricoco (NR. encapuzado que acompanhava as
procissões de penitência tocando
trombeta de vez em quando), tomava parte nas extintas
procissões de cinzas, caminhando a sua
frente, armado de um comprido relho (chicote de
couro torcido), com que ia fustigando o pessoal
que impedia a sua marcha”.
Figura temida, sobretudo pelas crianças,
o papangu que puxava as procissões religiosas
começou a ser questionado até que,
em 1831, foi proibido, através das Posturas
da Câmara Municipal do Recife: “Ficam
proibidos os farricocos e papangus, figura de
morte e de tirano, nas procissões que a
Igreja celebra no tempo da Quaresma”. Depois
dessa proibição, o termo papangu
passou a denominar tudo o que fosse agressivo,
grosseiro. Em 1846, circulou no Recife um jornal
político, de linha editorial panfletária,
sob o título de “O Papa-Angu”.
Atualmente, como todo bom folião sabe,
os papangus são apenas alegres mascarados
que enchem as ruas das cidades pernambucanas,
nos dias de carnaval. O município de Bezerros,
a 100 quilômetros do Recife, é a
região do Estado que apresenta a maior
concentração desse tipo de carnavalesco.
Ali, segundo os moradores, os primeiros papangus
de que se têm notícias surgiram na
década de 1930. Eram os chamados “papangus
pobres”, que trajavam roupas velhas e máscaras
rústicas confeccionadas com papel jornal
e goma.
A partir dos anos 1960, os papangus de Bezerros
ficaram mais numerosos, embora uns ainda usando
fantasias pobres, mas outros já exibindo
batas coloridas e máscaras bem trabalhadas.
A partir da década de 1990, depois que
a televisão começou mostrar aquela
característica do carnaval da cidade, os
papanguns bezerrenses passaram a usar máscaras
sofisticadas, confeccionadas com todo tipo de
material e desenhadas por artistas plásticos
locais ou de outras regiões do Estado.
A “brincadeira” cresceu tanto que,
hoje, a cidade é conhecida como a Terra
dos Papangus.
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