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Alguns espetáculos turístico-culturais
pernambucanos tiveram origem em histórias
sangrentas. Umm exemplo é a Missa do Vaqueiro
que acontece em Serrita, com shows artísticos,
exposições de artesanato e, claro,
toda uma programação religiosa.
A celebração começou como
um ato de protesto contra a impunidade no sertão
e só anos mais tarde seria transformada
em espetáculo do calendário turístico
de Pernambuco. Mas, e o crime? Quem se interessou
em apurar? Quem pagou pela morte de Raimundo Jacó,
o vaqueiro que deu origem à hoje famosa
missa?
Como é do conhecimento dos pernambucanos,
o vaqueiro foi encontrado no meio da caatinga,
a 08 de julho de 1954, com a cabeça despedaçada.
Ele havia passado a noite anterior em companhia
do colega Miguel Lopes, juntando o gado para levar
de Serrita a uma região onde a seca ainda
deixara algum pasto.
Logo após o crime, Lopes foi apontado
como o assassino, mas o caso nunca chegou a ser
totalmente esclarecido. A pedra que teria sido
usada pelo criminoso, manchada de sangue, foi
entregue à Polícia da cidade, mas
desapareceu. E, assim, o crime tornou-se oficialmente
um mistério e a história de Raimundo
Jacó virou lenda.
Nos primeiros anos de celebração
(a missa é resada desde 1971), o padre
João Câncio, criador do ato de protesto,
explicava o objetivo de iniciativa: "pregar
a união entre os vaqueiros e denunciar
o clima de injustiça reinante no sertão".
E acrescentava: "Serrita é uma região
cheia de ódio e crimes impunes, ainda mais
violenta do que Exu. Só nos últimos
dois anos, ocorreram dez mortes impunes por aqui."
Em 1976, quando a missa já era mais um
espetáculo turístico do que ato
religioso, o padre Câncio reclamava: "O
turista deve entender que o aboio do vaqueiro
nessa missa não é apenas folcore,
mas sobretudo um grito em defesa de toda essa
gente sofrida do sertão".
O cantor e compositor Luiz Gonzaga, outro criador
da missa e primo do vaqueiro assassinado, por
várias vezes chegou a se irritar com a
agitação dos turistas durante a
celebração. Mas, tanto o "rei
do baião" quanto o padre João
Câncio sabiam que era impossível
reverter o caráter de espetáculo
que o protesto já havia tomado.
O que eles pretendiam era lembrar a origem de
toda a festividade que acompanha a missa: um assassinato
impune. Num dos seus Cds, gravado ao vivo, antes
de interpretar a canção que compôs
para Raimundo Jacó, Luiz Gonzaga chegou
a dizer que "o covarde crime" teve "motivos
políticos".
Se Luiz Gonzaga tinha razão, até
hoje ninguém sabe. Tudo o que sabemos é
que o episódio virou apenas festa.
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