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O Estado de Pernambuco, como toda a região
Nordeste, apresenta uma grande variedade de produtos
artesanais. Além do tipo figurativo, composto
por peças que são verdadeiras obras
de arte, há uma enorme quantidade de produtos
utilitários, indispensáveis no dia-a-dia
da nossa população.
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Pelos principais ramos,
o artesanato pernambucano está assim
dividido: Cestaria e trançados; bordados
e rendas; cerâmica; couro; tecelagem;
madeira; metal; tapeçaria.
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Cerâmica - É a
argila modelada e aquecida a ponto de manter a
forma definitiva desejada. Basicamente, existem
dois tipos: a cerâmica utilitária
e a ornamental, embora atualmente grande número
de peças de cerâmica utilitária
seja utilizada para efeito decorativo. O processo
de produção é único:
pegar determinada quantidade de argila, misturá-la
à água para formar o barro destinado
à curtição durante dois ou
três dias. Depois, vem a etapa do amassamento
para tornar o barro homogêneo. O barro ganha
consistência pastosa, ideal para a modelagem.
As peças modeladas passam pela fase de
secagem e, depois, vem a etapa do cozimento, geralmente
em fornos rudimentares.
| Peças em
cerâmica,do artista Antônio Bernardo,
da cidade de Tracunhaém. |

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As peças são: vasos, panelas, jarros,
bonecos e outra infinidade de objetos. Um dos
maiores centros produtores é o município
de Caruaru, no Agreste de Pernambuco, onde está
localizado o Alto do Moura, onde são produzidos
os famosos bonecos do Mestre Vitalino.
Cestaria e tançados -
São muitos os artigos produzidos com fibras
vegetais: bolsas de vários tamanhos e modelos,
tapetes, chapéus, cestas, esteiras, sacolas,
estandartes etc. As fibras que servem de matéria-prima
também são muitas, como o sisal
(ou agave), folha de carnaubeira, folha de bananeira,
de coqueiro, de ouricuri, buriti, catolé
e outros. Além disso, também servem
como matéria-prima: linhas de coser, cordões,
cordas, linha de náilon, cola e arame.
Boa parte dos artigos comercializados em Pernambuco
vem de um dos maiores produtores nordestinos de
artigos desse tipo, o Rio Grande do norte, onde
as matérias-primas predominantes são
o sisal e a palma da carnaubeira.
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Bordados - O bordado, executado
sobre o tecido com agulha e linha, difere da renda
porque esta não é aplicada sobre
funda já existente: ela mesma é
um tecido de malhas abertas e com textura delicada,
cujos fios se entrelaçam formando um desenho.
Os bordados existem em vários tipos: ponto-de-cruz,
ponto-cheio, labirinto, renascença e outros.
Já as rendas mais famosas são as
de bilros. Tanto com o bordado quanto com as rendas,
são confeccionados artigos de cama e mesa
e peças de vestuário.
Redes - Grande parte das redes
produzidas atualmente em Pernambuco já
são através de processos industriais.
Mas, em algumas regiões -como, por exemplo,
o município de Tacaratu - ainda está
presente o processo artesanal, através
do qual a rede é produzida num penoso trabalho
de mais de 20 etapas. A parte mais pesada do trabalho
(a de tecelagem do pano que serve de corpo da
rede) é feita através dos chamados
teares de batelão. Outras partes fundamentais
são as de confecção da corda
de trancelim e do punho. A matéria-prima
principal para o fabrico da rede é o fio
de algodão.
Artigos de metal - Feitos com
matérias-primas como o zinco, bronze e
sucata e latão, há uma grande variedade
de peças artesanais em metal. Exemplos:
chocalhos, campainhas, sinetas, cinzeiros, castiçais,
bacias, crucifixos, brasões, etc. Com sucata
de latão, também são produzidos
vários tipos de brinquedos infantis, como
carros, trens, cata-ventos, miniaturas de carrosséis
e rodas-gigantes, entre outros. O município
de Gravatá é um grande produtor
de brinquedos infantis através de processo
artesanal.
| Na cidade de Cachoeirinha,
conhecida com a terra do couro e do aço,
entre as peças em metal mais vendidas
estão o estribo e a espora. |

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Artigos de couro - São
artigos como bolsas, cintos, chapéus, sapatos
e outros, do tipo popular, destinados à
população de baixa renda. Além
desses produtos, também são confeccionados
arreios para cavalo, bainhas para faca, moringas,
cartucheiras, gibões e selas para montaria
em animais. Os maiores centros produtores de artigos
artesanais em couro do Estado são os municípios
de Toritama e Timbaúba, produtores sobretudo
de calçados, bolsas e cintos. As principais
matérias-primas utilizadas são o
couro de bovinos ou caprinos e borracha (reaproveitamento
de pneus).
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Artigos em madeira - Como a
cerâmica, os artigos artesanais em madeira
dividem-se em dois tipos: o utilitário
e o decorativo. Entre as peça utilitárias,
destacam-se a colher de pau, cabides, saleiros,
açucareiros, etc. Entre as peças
decorativas, destacam-se as talhas. Segundo o
pesquisador Olímpio Bonald Neto, a arte
do entalhamento, de origem européia, chegou
a Pernambuco em meados do Século XVI, com
a construção de templos e fortificações.
O trabalho desses primeiros carpinteiros também
foi utilizado pelos engenhos de açúcar,
para confeccionar as moendas, os eixos, as rodas
d'água, as caixas de transportar açúcar,
além de abrir as marcas dos senhores de
engenhos em peças nobres. As madeiras mais
utilizadas eram a sucupira, massaranduba, pau-d'arco,
pau-brasil, que na época existiam em abundância
na Mata Atlântica. Além das talhas,
existem também os brinquedos populares
em madeira, como peões, iô-iôs
e o mané-gostoso (pequeno boneco que, acionado,
imita um ginasta numa barra).
| Principais
localidades produtoras de artigos artesanais
no Estado |
| Ramos |
Localidades |
| Cerâmica |
Igarassu, Lagoa de Itaenga,
Olinda, Nazaré da Mata, Surubim, Sâo
Lourenço da Mata, Recife e Tracunhaém. |
| Cestaria e Trançado |
Águas Belas, Arcoverde, Alagoinha,
Barreiros, Caruaru, Canhotinho, Fazenda Nova,
Floresta, Itamaracá, Garanhuns, Petrolândia,
Joboatão, Petrolina, Jupi, Recife,
Tamandaré, Timbaúba, São
Lourenço da Mata, Serrita. |
| Bordados e Rendas |
Poção, Pesqueira,
Tacaimbó, Alagoinha, Bezerros, Caetés,
Carpina, Fazenda Nova, Limoeiro, Jataúba,
Paudalho, Paulista, Ribeirão, São
Lourenço da Mata, Recife. |
| Tecelagem |
Tacaratu, Itacuruba, Caruaru, Carpina, Itamaracá,
Goiana, Limoeiro, Timbaúba, Toritama,
São Lourenço da Mata, Recife. |
| Madeira |
Gravatá, Águas
Belas, Olinda, Caruaru, Bezerros, Água
Preta, Fazenda Nova, Cupira, Itamaracá,
Ibimirim, Palmares, Panelas, Quipapá,
Petrolina, Rio Formoso, Recife, Surubim |
| Couro |
Cachoeirinha, Caruaru, Timbaúba,
Águas Belas, Cupira, Panelas, Fazenda
Nova, Floresta, Goiana, Limoeiro, Palmerina,
Pedra, Santa Cruz do Capibaribe, Tacaratu,
Toritana, Recife. |
| Metal |
Gravatá, Bezerros,
Agrestina, Água Preta, Caruaru, Cabo,
Cupira, Fazenda Nova, Panelas, Petrolina,
São Caetano, Surubim, Recife. |
| Tapeçaria |
Rio Formoso, Olinda, Recife, Quipapá,
Barreiros, Limoeiro. |
| Fonte:
Banco do Nordeste. Incluindo artesanato figurativo
e utilitário |
| Alto do
Moura - Distante 7 km do centro de
Caruaru, é um pequeno bairro localizado
no alto de um morro, tem apenas duas fileiras
de casas, quase todas habitadas por artesãos
que ganham a vida modelando bonecos de barro,
conhecidos como "bonecos de Vitalino",
numa referência ao primeiro artista
do lugar que ganhou fama nacional. O bairro
ganhou da Unesco o título de maior
centro de arte figurativa das Américas.
É lá que fica, instalado numa
modesta casa onde o artista viveu, o Museu
Mestre Vitalino. |

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Tracunhaém - Município
localizado na zona da mata sul do Estado, a 63
km do Recife, famoso por ser um pólo cerâmico.
Os ceramistas dedicam-se, especialmente, a imagens
de santo em barro. Entre seus principais artesãos
estão Zezinho de Tracunhaém, Nilton
Tavares e José Joaquim da Silva. Outro
artista que tem ligações com o pólo
é Thiago Amorim, residente em Olinda, mas
que ganhou notoriedade como ceramista em Trachunhaém,
entre os anos 1975/1985.
| Os santos produzidos
pelos artesãos locais são muito
famosos. Quando esteve no Recife, em 1980,
o Papa João Paulo II. levou uma imagem
de Nossa Senhora do Carmo produzida em Tracunhaém.
Consta que os primeiros artesãos locais
foram os índios tupis, que modelavam
cachimbos de barro. |

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Artesãos
Ana das Carrancas - Ceramista,
Ana Leopoldina Santos Silva, a Ana das Carrancas,
nasceu em 1923, em Santa Filomena, que à
época era distrito de Ouricuri. Começou
a trabalhar aos sete anos de idade, ajudando a
mãe a fazer potes e panelas de barro para
vender na feira. Em 1932, passou a morar em Petrolina
e continuou o fabrico de cerâmica utilitária
por mais de 20 anos. Quando a mãe deixou
o barro, por problemas de saúde, e o padrasto
(que era cego) morreu, a jovem Ana passou a sustentar
a família com o seu duro trabalho.
O barro para o fabrico das panelas e potes era
extraído de um terreno próximo ao
galpão onde ela trabalhava. Mas, com o
crescimento da cidade, a matéria-prima
começou a escassear e ela teve que percorrer
as margens do rio São Francisco à
procura de barro. E foi dessas andanças
que surgiu a sua arte: toda vez que chegava ao
rio, Ana via as carrancas (de madeira) multicoloridas
nas proas das barcaças. Um dia, resolveu
fazê-las de barro "para ver no que
dava".
Fazia o barco completo, com toldo, leme e, na
proa, a ameaçadora carranca. O trabalho
teve aceitação e, logo, Ana das
Carrancas virou nome famoso. Depois, deixou de
fazer as barcaças, passando a esculpir
apenas a carranca, peças de tamanhos variados,
vendidas principalmente a turistas, proprietários
de hotéis e colecionadores.
Com a fama, veio a oportunidade de participar
de feiras em vários estados brasileiros
e suas peças já chegaram a vários
países da Europa. Suas peças têm
olhos vazados, forma que ela encontrou para homenagear
o marido, José Vicente de Barros, cego
de nascimento, que sempre participou do trabalho
fazendo os bolos de barro para a produção
das peças.
Uma de suas filhas, Ângela Lima, nascida
em 1979, segue a carreira de ceramista. Foi Ana
das Carrancas quem primeiro usou o barro como
matéria-prima para a produção
das carrancas que tradicionalmente são
feitas em madeira. Ela morreu em Petrolina, a
01 de outubro de 2008.
Bigode - Escultor José
Alves da Silva, o Bigode, nasceu em 1929, em Goiana,
onde começou a trabalhar em madeira aos
seis anos de idade. Suas primeiras peças
foram duas bonecas, esculpidas em mulungu para
suas irmãs. Depois, começou a produzir
santos. Em Olinda, para onde mudou-se em 1949,
foi sapateiro, especializando-se na produção
de sapatos Luiz XV "para moças ricas".
No final da década de 1960, abraçou
de vez a profissão de escultor e entalhador
e suas peças ganharam fama. Chegou a ministrar
vários cursos para artesãos mirins
na Região Metropolitana do Recife. Produz
especialmente santos, anjos, Cristo, Buda etc.
Suas peças variam de 60 cm a um metro,
esculpidas ou entalhadas em madeira velha ou sobras
que compra na serrarias.
Domingos - Natural de Petrolina, Domingos
Trindade Lopes, ou simplesmente Domingos, aos
12 anos de idade trabalhava como ajudante de pedreiro.
Em 1971, começou a fazer as tradicionais
carrancas de madeira, talhadas em cedro ou imburana.
Suas carrancas variam de tamanho -entre 40 cm
e 1,5m- e nunca serviram como figuras de proa
de embarcações, são apenas
peças decorativas. No princípio,
ele inspirou-se no trabalho da sogra (Ana das
Carrancas, que utiliza barro) e, depois, passou
a usar como modelo uma peça do mais famoso
carranqueiro de todo o Vale do São Francisco
- o baiano Francisco Biquiba Dy Lafuente Guarany
(1882-1985). A partir da concepção
e dos cortes do grande mestre, desenvolveu seu
estilo e conquistou espaço.
Dona Biu - Dona Biu é o nome popular
de Severina Bruno da Silva, artesão especializada
no fabrico de bonecas de pano. Nasceu em 1919,
em Jaboatão, filha de trabalhadores rurais
de engenho de cana-de-açúcar. Começou
a trabalhar no artesanato ainda jovem, entre os
17 e 18 anos de idade, para complementar a renda
da família. Utiliza retalhos de tecidos,
algodão e arame (uma novidade nesse tipo
de brinquedo) para confeccionar as suas bonecas,
tradicionalmente de 15 cm e outras especiais que
chegam a 50 cm. Costureira, analfabeta, teve 17
filhos, dos quais 13 sobreviveram.
Daniel Santeiro - Escultor, Benedito
Belo da Silva, o Daniel Santeiro, nasceu em 1950,
em São Benedito do Sul. Aos sete anos de
idade já confeccionava seus brinquedos:
bonecos de mamulengo, bengalas e carrinhos de
madeira. Produz suas esculturas, de dois a quatro
metros, sobretudo em troncos de jaqueira, "por
ser um pau que agüenta muitos anos de sol
e chuva e não precisa envernizar".
Seus santos são de estilo barroco, contendo
semelhanças com o trabalho de Aleijadinho,
desenhados com um machado no próprio ato
de execução das peças. Quando
era criança, fugiu de casa e ganhou o apelido
de Daniel de um motorista que lhe deu carona até
o Recife em um caminhão. Na Capital, foi
parar num orfanato onde aprendeu a pintar. Além
de santos, produz pequenas esculturas de Lampião
e Maria Bonita. Em 1973, participou de uma exposição
no Rio de Janeiro.
Julião das Máscaras
- Bonequeiro, João Dias Vilela, o Julião
das Máscaras, nasceu em Olinda, a 06/02/1924
e morreu na mesma cidade, a 16/03/1997. Confeccionava
máscaras carnavalescas e foi um dos primeiros
a produzir os famosos bonecos gigantes do carnaval
olindense. Filho do artesão Julião
Dias Vilela, de quem herdou as técnicas
do trabalho no barro, na madeira e com massas
plásticas, desde menino trabalhou na produção
de máscaras carnavalescas em papel.
Eram máscaras de gente e de bicho, palhaços,
arlequins, caveiras, além de cabeças
de urso de carnaval, leões e outros bichos.
Passado o período carnavalesco, produzia
pipas, papagaios, balões ou estrelas de
São João, pois sobrevivia do seu
trabalho como artesão. Trabalhou, também,
no jogo do bicho e consertando móveis,
foi pescador, empalhador de cadeiras, restaurador,
animador de pastoril, produtor de bonecos de mamolengo
e brinquedos de madeira e, muitas vezes, deu uma
de ator, vestido de Papai Noel para atrair freguesia
em casas comerciais.
Produziu mais de 50 bonecos gigantes para agremiações
carnavalescas de Olinda, entre os quais o Barba
Papa, Mulher do Dia, Menino da tarde, Geni, Carlitos,
O Filho do Homem da Meia-Noite, Garoto do Amaro
Branco e O Guarda. Em julho de 1987, participou
da 10ª Feira Brasileira de Artesanato, realizada
no Parque Ibirapuera, em São Paulo. Morreu
pobre, deixando vários seguidores, inclusive
os seis filhos.
Manuel de Camaragibe - Filho
de carpinteiro, Manuel de Camaragibe nasceu em
Santana do Ipanema, Alagoas, e quando criança
trabalhou na agricultura e em olarias. Depois,
foi ajudar o pai na carpintaria, onde aprender
fazer móveis. Depois, mudou-se para o Recife,
fixando residência no então bairro
de Camaragibe, onde até o início
da década de 1970 trabalhou como pedreiro.
Um dia, conheceu o artesão Daniel Santeiro,
com quem começou a trabalhar como ajudante.
Usando preferencialmente a jaqueira, seguiu o
ofício e passou a produzir suas próprias
peças, santos medindo entre 1,50m e 2,0m.
Entre sua produção, também
constam pequenas esculturas de animais e estátuas
do Padre Cícero, Lampião e Maria
Bonita. Os santos mais presentes na obra do artesão:
São Francisco, Santa Tereza, N. S. da Conceição,
Santa Luzia e São Sebastião.
Manuel Eudócio - Manuel
Eudócio nasceu no Alto do Moura, Caruaru,
em 1931, de uma família que ganhava a vida
produzindo peças de cerâmica utilitária
para vender na feira da cidade. Assim, conheceu
o trabalho com o barro desde criança, quando
fazia brinquedos para uso próprio, sem
nenhuma outra pretensão. No final da década
de 1940, com a chegada ao povoado do Mestre Vitalino
(de quem foi aprendiz), passou a modelar bonecos
para vender nas feiras-livres e nunca mais abandonaria
a arte do barro. Sempre fez todo tipo de peças
-Lampião, Maria Bonita, médico operando
doente, casamento na roça, dentista extraindo
dente etc.- mas nunca escondeu sua preferência
pelo famoso boi de barro, uma das primeiras peças
desse tipo de cerâmica. Pintadas a óleo
ou sem nenhuma pintura.
Mestre Galdino - Ceramista, cantador
de viola e poeta de cordel, Mestre Galdino (Manuel
Galdino de Freitas) nasceu em 1928 e foi um dos
artistas mais famosos do Alto do Moura, em Caruaru.
Gostava de fazer moringas e monges, mas sua arte
maior estava nos pequenos bonecos de barro. Para
cada boneco que produzia, costumava escrever uma
história que ia anotando num caderno -
chegou a escrever mais de mil histórias.
Vaidoso, quando alguém indagava se havia
aprendido o ofício com o Mestre Vitalino,
ele respondia em versos: "Galdino é
bonequeiro/e sou poeta também/tem boneco
em minha casa/que bonequeiro não tem/na
arte só devo a Deus/lição
não devo a ninguém". Cuidadoso,
depois de modelar as peças, deixava oito
dias para secar. Após esse período,
as peças iam para o forno (de tijolo, no
fundo do quintal de sua casa) e passavam dez horas
lá dentro. Finalmente, as peças
ficavam mais quatro horas com o fogo apagado,
"para desenfornar". Caso não
seguisse todo esse ritual, dizia o mestre, "o
bicho ficava encruado e feio".
Uma das mais famosas obras do Mestre Galdino,
produzida no final da década de 1980, ocupava
quase metade de sua mesa de trabalho. Era a história,
em barro, de dois irmãos que resolveram
casar e pagaram pelo pecado do incesto tendo 118
filhos deformados. Galdino trabalha na sua pequena
casa, no Alto do Moura, com ajuda da mulher e
dos cinco filhos. Antônio Galdino de Freitas,
um dos filhos do mestre, é hoje outro famoso
artista do Alto do Moura.
Mestre Vitalino - Ceramista,
Vitalino Pereira dos Santos, o Mestre Vitalino,
nasceu a 10-06-1909, no sítio Campos, em
Caruaru. Famoso por seus bonecos de barro (que
aprendeu modelar quando tinha seis anos de idade)
representando cenas ou tipos do Nordeste brasileiro,
tais como boi, jumento, casamento matuto, cantadores
de viola na feira, matuto em dia de batizado,
mulher carregando lenha etc. Inicialmente, suas
peças eram vendidas nas feiras como brinquedo
de criança e só tempos mais tarde
seriam vistas como arte, denominadas "bonecos
de Vitalino".
Analfabeto, só quando adulto ele passou
a assinar suas peças, depois que outros
ceramistas passaram a copiá-lo. Em 1948,
fixou residência no Alto do Moura, um povoado
a 06 Km do centro de Caruaru e que, depois, seria
considerado um dos maiores centros de arte figurativa
da América Latina, tamanha a quantidade
de ceramistas que ali se estabeleceram.
Tocador de pífano sem nunca ter estudado
música ("fui aprendendo pela cadência,
tirando do juízo"), expôs pela
primeira vez os seus bonecos numa exposição
de cerâmica pernambucana no Rio de Janeiro,
organizada em 1947 pelo artista plástico
Augusto Rodrigues. Em 1960, participou, na residência
do industrial Drault Hermanny, na cidade do Rio
de Janeiro, de uma Noite de Caruaru, durante a
qual 37 dos seus bonecos foram leiloados e ele
doou a renda para a construção do
Museu de Arte Popular de Caruaru, ao qual depois
também doaria outras 250 peças.
No mesmo ano de 1960, recebeu do governo do estão
Estado da Guanabara a Medalha Sílvio Romero,
atribuída "àqueles que contribuem
para a divulgação do folclore nacional".
Em 1961, a embaixada brasileira em Lima, Peru,
realizou uma exposição individual
do mestre. Vitalino morreu pobre, a 20/01/1963,
deixando inúmeros seguidores, inclusive
a mulher e filhos.
Suas peças originais estão espalhadas
por todo o Brasil e também pelo exterior,
como no Museu do Louvre, em Paris. Atualmente,
a casa onde ele residiu até a morte, no
Alto do Moura, é sede do Museu Mestre Vitalino.
Em 1975, a Companhia de Defesa do Folclore Brasileiro
lançou o disco "Vitalino e sua Zabumba",
com seis músicas gravadas nos estúdios
da Rádio MEC, no Rio, em 1960.
Entre os filhos de Vitalino, praticamente todos
se destacaram dando continuidade ao trabalho do
pai: AMARO VITALINO, filho mais velho, nascido
em 1934; MANUEL VITALINO, nascido em 1935; MARIQUINHA,
a Maria José, que, além dos bonecos
de tamanho tradicional, cerca de 10 cm, especializou-se
em miniaturas; e SEVERINO VITALINO, irrequieto
introdutor de novas figuras na produção
desse tipo de bonecos.
"Eu aprendi tocar pela cadência, tirando
tudo do juízo"
Além de ceramista e criador dos bonecos
de barro, Vitalino também foi um excelente
tocador de pífanos. Como não sabia
escrever, nunca estudou música e explicava
da seguinte maneira sua iniciação
nessa área: "Fui aprendendo tocar
pela cadência, tirando tudo do juízo".
Ele tinha sua própria bandinha (ou zabumba,
como também são chamadas as bandas
de pífanos), da qual era o pífano
principal, mestre e compositor.
A Banda do Mestre Vitalino era igual às
outras da região, ou seja, tocava de tudo:
acompanhava procissão (Vitalino era devoto
de São Sebastião e, claro, do Padre
Cícero), animava festas de casamento, batizado
e outras. Nas cerimônias religiosas, o respeito
era sagrado. Mas, nas "farras do mundo"
as sopradas no pífano eram intercaladas
por uma boa cachaça "pra aliviar o
coração".
Em novembro de 1960, Vitalino viajou ao Rio de
Janeiro, para participar de uma "Noite de
Caruaru", organizada por intelectuais como
os irmãos Condé, e levou junto a
sua banda. O objetivo da festa era uma exposição
de arte, mas a banda agradou tanto que acabou
gravando, nos estúdios da Rádio
MEC, seis músicas que em 1975, já
depois de sua morte, fariam parte do disco "Vitalino
e Sua Zabumba" lançado pela Companhia
de Defesa do Folclore Brasileiro.
Apesar de só ter ficado famoso por conta
dos bonecos de barro, Vitalino tinha uma grande
paixão pela música. Tanto que na
sua mais conhecida foto ele aparece tocando pífano.
Mas a maior apego do ceramista era, sem dúvida,
com sua terra. Na viagem de volta do Rio de Janeiro,
por exemplo, ansioso para chegar em Caruaru, por
várias vezes ele pediu a um amigo que perguntasse
à aeromoça "quantas léguas
faltavam para chegar".
Neílton Santos - Escultor,
Neílton Guedes dos Santos nasceu na Paraíba,
em 1949, iniciou a carreira ainda criança,
quando confeccionava bonecos de mamolengo. No
início da década de 1970, mudou-se
para o Recife e passou a produzir vários
tipos de peças em madeira ou quenga de
coco, tais como brinquedos, adereços e
esculturas. Autodidata, utiliza em seu trabalho
o Cajá (madeira difícil de lascar)
e raízes e troncos de Panã -uma
árvore de beira de rio ou de lagoa de água
doce. Usa, também, frutos da cabaceira
(o cabaço) para produzir rostos, cabeças,
figuras de bichos, pássaros e bonecos.
Formado em administração de empresas,
tem o artesanato como uma paixão, realizou
trabalhos de restauração de peças
históricas e já vendeu bonecos para
vários países.
Nhô Caboclo - Escultor
e entalhador, Manuel Fontoura, o Nhô Caboclo,
nasceu em Águas Belas, em data que nunca
soube precisar. Viveu a infância e a adolescência
numa fazenda em Garanhuns e, já adulto,
mudou-se para o Recife onde ficou conhecido como
"o bonequeiro de Casa Amarela". Irreverente,
contador de histórias mirabolantes, ganhou
fama depois que passou a produzir engenhocas como
miniaturas de roda-d'água, cata-vento,
casa-de-farinha e outras, utilizando-se de pedaços
de madeira, lata velha, pregos, cordão
e tudo o que encontrasse pela frente. Suas peças
são de uma perfeição e beleza
de fazer inveja. Analfabeto, dizia-se autodidata:
"tiro toda minha arte do miolo do juízo,
nunca aprendi nada com ninguém". No
princípio, trabalhou com barro e, já
no final da vida, dizia ter abandonado a talha
por ser "uma peça parada", preferindo
dedicar todo seu tempo na invenção
de suas engenhocas. Boêmio inveterado, morreu
em abril de 1976, solteiro, porque, como dizia,
"sustentar uma mulher era mais caro do que
sustentar uma cabra".
Severino de Tracunhaém -
Severino Gomes de Freitas, o Severino de Tracunhaém,
(1916-1965) foi um dos mais representativos ceramistas
de Trachunhaém, cidade onde nasceu e onde
trabalhou nos engenhos de cana-de-açúcar
até casar com Lídia Vieira, na época
uma das mais famosas ceramistas nordestinas (faleceu
em 1974). De tanto observar a mulher modelando
seus bonecos, deixou o trabalho na agricultura
e entrou para o negócio do barro. Logo
desenvolveu estilo próprio e ganhou fama
como artista popular. Esculpia bichos e figuras
estranhas, frades, beatas, estatuetas de Padre
Cícero e outros. Suas peças, em
geral medindo entre 30 cm e 50 cm, integram coleções
particulares e acervos de alguns museus pernambucanos.
Morreu em decorrência de esquistossomose
adquirida na zona rural onde viveu.
Sílvio Botelho - Bonequeiro,
Sílvio Romero Botelho de Almeida nasceu
em 1956, em Olinda, onde muito jovem começou
a desenhar e a fazer talhas e esculturas em madeira,
gesso e barro. Depois, passou a trabalhar como
ajudante de Roque Fogueteiro (um fabricante de
fogos de artifício que também confeccionava
máscaras carnavalescas), com quem aprendeu
o ofício de modelar os gigantes bonecos
do carnaval de Olinda. Em 1976, criou seu primeiro
boneco, para a agremiação Menino
da Tarde, vindo, em seguida, bonecos para blocos
e troças como John Travolta, O Demo, A
Bochecha, A Nordestina e outros. Ganhou notoriedade
depois que conseguiu produzir bonecos mais leves
que os tradicionais, utilizando novas técnicas
e materiais sem, no entanto, descaracterizar os
famosos bonecos gigantes do carnaval de Olinda.
Tita Caxiado - Entalhador, José
Caxiado da Silva, o Tita Caxiado, nasceu em 1951,
em Alagoinha, onde trabalhou na agricultura. Também
safoneiro, em 1968 veio para o Recife, onde chegou
a gravar um disco. Animado, tentou seguir a carreira
de cantor em São Paulo, mas não
foi bem sucedido e retornou a Pernambuco. Em 1975,
condenado a oito anos de prisão, foi parar
na Penitenciária Barreto Campelo, onde
começou a fazer pequenas estátuas
de madeira. Depois, ainda na prisão, optou
pela talha.
Zé Caboclo - Ceramista,
Zé Caboclo nasceu em Caruaru, em 1919.
Juntamente com o Mestre Vitalino e Manuel Eudócio,
formou o mais representativo trio de artistas
do barro do Alto do Moura. Filho de louceira,
desde criança produzia bois, cavalos e
outros brinquedos de barro para vender na feira
da cidade. Depois, passou aos bonecos mais elaborados
-como os que representam cenas típicas
do Nordeste rural ou profissionais como dentista
e médico em atividade. Ousado, inovou o
universo dos chamados bonecos de Vitalino, ao
modelar peças como a Virgem Maria usando
um vestido de cores berrantes; figuras do bumba-meu-boi,
do Maracatu, além de peças de mais
de um metro de tamanho, sendo metade jarra e metade
estátua de personagem como Padre Cícero,
Lampião e Maria Bonita. Morreu, de esquistossomose,
em 1973, deixando mulher e filhos como seguidores.
Zé do Gato - Entalhador
e carranqueiro, José Severino de Lira,
o Zé do Gato, nasceu em Bezerros, em 1942.
Filho de carpinteiro, nunca havia despertado interesse
por trabalhos em madeira até que, em 1965,
foi condenado a 12 anos de prisão e veio
cumprir pena na antiga Casa de Detenção,
no Recife, onde começou a produzir peças
artesanais em chifre. Depois, passou para a madeira.
Inicialmente, produzia miniaturas de carro-de-bois,
barcos, jangadas etc. Posteriormente, passou a
fazer talhas e carrancas.
Zé do Mestre - Vaqueiro
e um dos mais famosos artesãos do couro
em Pernambuco, José Luiz Barbosa, o Zé
do Mestre, nasceu em 1932, na zona rural do município
de Salgueiro, onde vive até hoje. Aprendeu
o ofício com o pai, conhecido na região
por Mestre Luiz, vindo daí o apelido de
Zé do Mestre. Sua especialidade é
a produção das peças que
compõem os equipamentos e a vestimenta
típica do vaqueiro sertanejo: gibão,
perneira, chapéu, bota, luva, guarda-peito
(proteção para a barriga), chicote
e corda de relho para amarrar o boi, tudo no mais
resistente couro. Trabalha, com ajuda da mulher,
na casa onde mora, no sítio Cacimbinha,
a 14 km do centro de Salgueiro. Era a ele que
o compositor Luiz Gonzaga (já falecido)
confiava a produção das roupas de
couro que usava nos shows. Zé do Mestre
já confeccionou gibão para autoridades
como presidente da República, o rei Juan
Carlos, da Espanha, e tem peças no Museu
Missionário, no Vaticano. Depois que o
tradicional vaqueiro tornou-se uma figura rara
sertão e a encomenda de gibão caiu
praticamente a zero, ele iniciou a produção
de peças em miniatura, vendidas na feira
da cidade.
Zezinho de Tracunhaém
- Ceramista, José Joaquim da Silva, conhecido
como Zezinho de Tracunhaém, nasceu em 1939,
em Vitória de Santo Antão. Até
os 20 anos de idade, trabalhou na agricultura,
cortando cana. Depois, mudou-se para Nazaré
da Mata, onde foi ajudante de pedreiro. Certa
ocasião, ao passar por Trachunaém,
interessou-se pelo trabalho nas olarias e, desse
contato com o barro, surgiu o primeiro boneco
-um casal de namorados- que vendeu na feira de
Nazaré. Incentivado por amigos, dedicou-se
exclusivamente à cerâmica e, em 1968,
fixou residência em Tracunhaém. No
princípio, fazia bonecos semelhantes aos
do Mestre Vitalino, de Caruaru, para vender nas
feiras-livres. Depois, especializou-se em santos
e ganhou fama. Já participou de dezenas
de exposições em todo o Brasil e
tem trabalhos em museus de vários países.
Além de sua técnica, os santos do
artesão impressionam pelo tamanho -alguns
têm dois metros de altura. A modelagem é
toda à mão, com o emprego de uma
espátula de madeira e outra de metal. Produz,
também, figuras estranhas, como grandes
jarras com cabeça de gente e outras.
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